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Expresso

O Vento nas Velas

Luís de Almeida, Santo Popular japonês

Luís de Almeida merece a estátua que lhe fizeram em Oita no Sul do Japão. Dedicou a sua vida aos outros, sobretudo aos que sofriam.

Cristina Castel-Branco

Alberto Vaz da Silva, no seu diário da viagem de Comemoração dos 450 anos, organizada pelo Centro Nacional de Cultura, conta-nos o que se sabe deste homem que se tornou no Japão um santo popular. "Luís Fróis, na História do Japão, relata como se revelou cirurgião destro e especialista na aplicação de unguentos. Compreendemos que os japoneses que regulavam a saúde do corpo pelo equilíbrio do espírito também se tenham deixado deslumbrar por alguém que era perito em extrair balas de mosquete e outras cirurgias, em sarar feridas e aliviar lepras. A fé que nele depositavam contribuiu para os milagres verificados. Mas a aura que ainda hoje acompanha Santo Almeida, como lhe chama o Japão, não é simples feito de um hábil mercador que se tornou padre e tinha jeito para a medicina. Nem nos convencemos de que o conhecimento profundo das propriedades do óleo de eucalipto, do estímulo das correntes energéticas provocado pelo almíscar ou da influência do incenso na vitalidade, ou ainda o adequado discernimento dos poderes de certas raízes ou essências aromáticas ou da acção magnética de alguns metais possam explicar essa fulminante santidade outorgada pelo povo."

A dádiva de Luís de Almeida ao Japão revela uma entrega total indo ao encontro dos que mais precisavam. Montou o primeiro hospital do Japão. Que terão pensado os japoneses? Seria preciso estudar melhor os documentos locais da altura para perceber o sucesso deste homem cuja fama atravessou 5 séculos. Vaz da Silva relata: "A visita ao hospital Luís Almeida leva-nos a evocar a vida de um homem versado em arrezoado latino, medicina e humanidades. Depois de uma viagem a Goa, onde trava conhecimento com os missionários jesuítas e assiste numerosos doentes, parte para o Japão em 1552. Retira-se em Funai, actual Oita, faz os seus exercícios espirituais, reconhece que me hia chegando aos trinta anos, idade que manda a Igreja que cada um se determine na vida que ha de ter para que, seguindo e tomando o estado que lhe Nosso Senhor der a sentir, não viva em pecado mortal. Ingressa na Companhia de Jesus decidido a aliviar as doenças corporais dos seus irmãos. É grande o seu papel na fundação do esprital do Bungo que abriu portas em Funai, junto de uma casa para crianças abandonadas.

"Não basta conhecer o fundo mineral do organismo para equilibrar almas. O coração desse homem tinha que irradiar um imponderável poder unificador, a consonância do seu espírito que atingir acordes de benevolência e constância pouco comuns; para ele não podiam existir impaciências ou cansaços. O monumento de Amakusa mostra-o a impôr as mãos na cabeça de uma criança, mas as mãos, como o olhar ou o pensamento, são apenas meios. É o magnetismo do coração que une aos mundos distantes."

E a vida extraordinária deste homem não é contada nas escolas portuguesas! Trabalho humanitário de grande qualidade, enriquecedor de uma globalização espontânea que estes dois povos viveram. O orgulho de ter gente desta na nossa cultura não é realçado a tempo de nos servir de exemplo! Quanto mais conheço o que os portugueses fizeram no Japão, mais pena tenho de se terem esquecido de nos contar a nossa história do século cristão no Japão!





Coordenação



Cristina Castel-Branco e João Paulo Oliveira e Costa



Assistência Tecnica



Inês Pinto Coelho e Margarida Paes



Colaboradores



Alexandra Curvelo, Ana Fernandes Pinto, Leonilda Alfarrobinha, Pedro Canavarro, Ayano Shinzato D. Pereira, Alberto Vaz da Silva