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Expresso

O Vento nas Velas

Do Karaté à poesia Haiku

Primavera. Pintura de Takae Nitahara

Também eu fiz a minha descoberta do Japão, uns bons séculos depois de três portugueses, num junco chinês, terem levado pela primeira vez a presença europeia às terras do Sol Nascente.

Leonilda Alfarrobinha

A minha porta de entrada no Japão e na sua cultura foi o karaté. A prática desta arte marcial despertou-me a curiosidade em relação àquele país tão distante e tão próximo. Sabendo que o conhecimento da língua é o caminho mais directo ou mais adequado para compreender a cultura e o espírito de um povo, iniciei o árduo mas aliciante estudo da língua japonesa.

Entretanto, viajei até ao Japão e, a pouco e pouco, fui conhecendo vários aspectos da sua cultura. O contacto com a poesia tradicional japonesa, sobretudo com o género poético designado haiku ou haikai, foi uma surpreendente revelação. Encantou-me a concisão, a leveza, a profunda simplicidade daqueles pequenos poemas, quase sempre intimamente ligados à Natureza. Com poucas palavras se diz o que se tem a dizer e o que fica em suspenso é sugerido ao leitor, que completará o poema com a sua imaginação e experiência de vida.

Do ponto de vista formal, o haiku, em japonês, é escrito, muitas vezes, como um monóstico, ou seja, um único verso. Mas, como este verso é formado por três segmentos de 5-7-5 sílabas métricas, aparece também frequentemente com a forma de terceto. É sob esta forma que, nas línguas ocidentais, o haiku é apresentado quando, no século XX, começou a ser praticado no Ocidente.

Também eu fui tocada e atraída pela poesia dos grandes poetas japoneses. E trouxe para a minha vida e para os meus escritos as lições que me foi possível aproveitar. Foi assim que, procurando aproximar-me do modelo do haiku japonês, mas usando a minha língua e inspirando-me em paisagens do meu país, eu comecei a cristalizar em palavras os momentos do quotidiano que, por qualquer razão, atingem determinadas cordas da minha sensibilidade. Surgiu então um livro a que dei o nome de O Respirar das Flores.

Uma artista japonesa, Takae Nitahara, criou propositadamente quatro pinturas para ilustrar as quatro estações do ano, que são o ritmo temporal que estrutura essa minha pequena obra.

Voltarei a falar da poesia japonesa, mas hoje deixo-vos com três poemas de O Respirar das Flores. Gosto de dizer que é um livro luso-japonês, uma experiência intercultural.

despontar da aurora - os pássaros esvoaçam dentro da folhagem

mar azul e branco - os olhos purificados e a alma também

noite de luar - as ervas bravas perfumam o canto dos grilos

Coordenação Cristina Castel-Branco e João Paulo Oliveira e Costa Assistência Tecnica Inês Pinto Coelho e Margarida Paes Colaboradores Alexandra Curvelo, Ana Fernandes Pinto, Leonilda Alfarrobinha, Pedro Canavarro