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O Vento nas Velas

Camélias ou Japoneiras?

No Norte de Portugal chama-se japoneira à cameleira e a partir desta duplicação de nome levantou-se a suspeita. Terá vindo a Camélia do Japão para Portugal? Foram os portugueses depois do contacto e do fascínio seiscentista pelo Japão quem primeiro trouxe a camélia para a Europa?

Cristina Castel-Branco

Cabe este mérito aos jesuítas portugueses no século XVI ou teremos que admitir só a versão oficial do seculo XVIII: Kamel, missionário jesuíta nascido na Morávia, mandou sementes da China, redigiu um tratado sobre a planta, e em 1734 (trinta anos após a sua morte) o reconhecimento dos botânicos levou à utilização do nome Camélia (o K não existia no alfabeto latino!) para designar a introdução na Europa desta nova planta que revolucionou os nossos jardins?

Na minha pesquisa e a juntar à suspeita encontra-se um documento pouco oficial mas muito bonito: os azulejos do Palácio Fronteira, construído por volta de 1668, onde aparecem camélias e os seus botões, bem antes de Kamel ter nascido.

As plantas vivas eram levadas e trazidas pelos navegadores portugueses nas suas naus. Antes das viagens oceânicas, apenas sementes podiam ser trazidas com facilidade nas caravanas terrestres. E assim sabemos que foram levadas para o Japão e aí plantadas pela primeria vez algumas plantas de que os jesuitas aí instalados tinham saudades, como a oliveira, a vinha, a figueira, o marmeleiro, o pessegueiro; e traziam outras. Quais? Podia a cameleira resistir a uma viagem tão longa ou veio em semente? Terá vindo acompanhada da nespreira (erybotrium japonica) também tão difundida nos jardins e pátios portugueses.

A cameleira é um arbusto ou árvore pequena, com origem nas florestas do sul do Japão, precisa de solos ácidos e de muita chuva, mantém a folhagem todo o ano e dá flores no inverno. Flores sem cheiro mas de uma perfeição inigualável, que exigem pouca manutenção, apesar da sua sofisticação. Todas estas características a fizeram vingar no Norte de Portugal e os jardins encheram-se de camélias em forma livre, podadas em forma de casa, em paredes com janelas, em sebes e no meio das matas, e todo o Norte de Portugal assim floresce no inverno.

Japoneiras antigas nos jardins históricos rente aos lagos, aos bancos, e a envolver as estátuas de granito. Se soubermos a sua idade, podemos confirmar quem primeiro as trouxe para a Europa.

Coordenação Cristina Castel-Branco e João Paulo Oliveira e Costa Assistência Tecnica Inês Pinto Coelho e Margarida Paes Colaboradores Alexandra Curvelo, Ana Fernandes Pinto, Leonilde Alfarrobinha, Pedro Canavarro