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Expresso

Um olhar

Da Marinha Grande a Belém

As contas estavam difíceis para Mário Soares nas Presidenciais de 1986. Arrancara para a campanha com uns tristes 8% nas sondagens. E o campo da esquerda era disputado por dois outros candidatos de peso: o seu outrora amigo e camarada Salgado Zenha e a sempre imprevisível Maria de Lurdes Pintasilgo. À direita, sozinho e soberano, Freitas do Amaral parecia caminhar sobre um tapete vermelho, em direcção a uma vitória quase inevitável. Até que, ao final da tarde de 15 de Janeiro, já escuro como breu, após ter almoçado com os pescadores em Peniche e dançado com as varinas da Nazaré, Soares encaminhou-se para um local que se adivinhava difícil, a Marinha Grande - feudo comunista e centro operário a sofrer as agruras dos salários em atraso. Avisado, adiantei-me à caravana. Algumas dezenas de pessoas aguardavam-no, armadas com palavras em cartazes e paus com que agrediram toda a comitiva. Nem o candidato escapou. Instantes depois, minimamente recomposto, Soares diria na fábrica-escola Irmãos Stephens: "Nós somos democratas e não temos medo deles..." A partir da Marinha Grande, a campanha eleitoral não voltou a ser a mesma. Empolgado, Soares ganhou as 'primárias' da esquerda. Na segunda volta, não só obrigou Álvaro Cunhal a 'engolir um sapo', como cometeu a proeza de derrotar Freitas.