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Expresso

Mais solidez, mais sustentabilidade

Sem deixar de reconhecer os desafios e os riscos que continuam a existir, é hoje evidente que, para além da melhoria do emprego e dos rendimentos, a economia e as finanças públicas portuguesas estão hoje mais sólidas e mais sustentáveis do que no final de 2015. Se os dados conhecidos já não deixavam grande margem para dúvidas, na semana passada, ao divulgar os números finais de 2016 e rever em alta os números de 2017 e do primeiro semestre de 2018, o INE deu (mais) uma machadada nas inúmeras variações discursivas sobre a vinda do diabo.

A economia portuguesa afinal cresceu mais em 2016 do que em 2015, tendo acelerado fortemente ao longo do primeiro ano da atual legislatura; o crescimento de 2017, já de si o mais elevado desde o ano 2000, foi revisto em alta; e o crescimento de 2018 também. Portugal cresce acima dos 2% há oito trimestres consecutivos, algo que já não acontecia desde o final dos anos 90. Porém, há uma diferença que faz toda a diferença face ao que se passava no final dos anos 90. Nesses anos de euforia na caminhada para moeda única, o crescimento da economia estava alavancado no endividamento crescente das empresas e das famílias. Alimentado por endividamento externo barato, o endividamento das empresas e das famílias era simultaneamente o motor do crescimento e um fator de fragilidade e insustentabilidade desse mesmo crescimento. No presente, parece passar-se o oposto: Portugal cresce de forma robusta com o endividamento das famílias, das empresas e do Estado a baixar, não a aumentar; e, adicionalmente, com a generalidade dos sectores da economia portuguesa em crescimento, e não apenas com o sector da construção e dos bens não transacionáveis, como acontecia no final dos anos 90. Um crescimento mais sustentável e equilibrado, portanto.

Ao contrário do que afirmou há tempos o líder do PSD, não só não parece haver qualquer “definhamento” da economia portuguesa – que até acelerou no segundo trimestre do ano – como também não estamos a viver qualquer tipo de endividamento “galopante” das famílias ou de qualquer outro sector doméstico. Segundo os dados mais recentes do Banco de Portugal, o endividamento do sector não financeiro, que era de 393% do PIB no final de 2015, baixou para 367% do PIB em junho de 2018. A redução do endividamento foi generalizada: baixou no Estado; baixou nas empresas grandes, baixou nas médias e baixou nas micro; e também baixou nas famílias. O endividamento deixou de ser um problema? Claro que não, porque a economia portuguesa continua fortemente endividada. Mas esse endividamento, ao contrário do que aconteceu no passado, está a baixar. Portugal está a fazer o caminho que tem de ser feito. Mas é um caminho, note-se.

No que depende exclusivamente de Portugal, é evidente que estamos hoje numa situação melhor e mais sustentável do que estávamos no início da atual legislatura. Portugal não é uma ilha, não sendo possível ignorar os riscos externos que se avolumam, quer os riscos que sempre existem, quer os novos riscos que decorrem da subida da extrema direita na Europa ou dos efeitos da presidência Trump na economia mundial. Mas qualquer ideia de descalabro iminente, de uma crise que se aproxima ou de que vivemos uma perigosa e insustentável ilusão que o tempo tratará rapidamente de dissipar não parece ter grande suporte nos dados conhecidos. No fundo, trata-se apenas de mais uma variação das profecias em torno da vinda do diabo.