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Expresso

A importância das Diásporas

Por vezes, só damos conta da riqueza que temos quando nos confrontamos com realidades diametralmente opostas àquelas em que vivemos. Confesso que passei por isso diversas vezes, principalmente quando fui “emigrante” durante seis anos na Bélgica mas também sempre que viajei para África, em particular para Moçambique ou São Tomé, em trabalho voluntário. Tudo se torna relativo perante circunstâncias adversas. Escrevo isto a propósito da rica e privilegiada relação que Portugal tem com as “diásporas, com a nossa que está espalhada pelo Mundo, mas também com as diásporas de outros países que escolheram Portugal para viver.

Somos na verdade um país muito peculiar e com uma capacidade absolutamente fantástica de integração, quer dos nossos no estrangeiro quer dos estrangeiros no seio da nossa comunidade. Essas duas características não estarão assim tão desligadas uma da outra pois acredito que quem está habituado a ser bem recebido também sentirá a obrigação moral de acolher bem. Afinal, Portugal sempre foi um país de viajantes e de emigrantes. Mas o racional não poderá ser apenas esse já que há países com grande tradição migratória que são hoje demasiado relutantes a acolher imigrantes de outros países (exemplo da Hungria ou da Polónia).

As dificuldades que as diásporas de vários países europeus enfrentam não são bem uma novidade, mas vêm somar-se às difíceis circunstâncias que as pessoas dos países do continente africano ou asiático têm enfrentado por todo o mundo, incluindo na Europa. Se o fim da URSS ou a cisão na Jugoslávia provocou a separação de vários países e nações que se espalharam por diferentes países europeus, hoje temos novas dificuldades que resultam por exemplo do Brexit. Sim, hoje os britânicos espalhados pelos restantes 27 Estados-Membros vivem preocupados com os seus direitos, tal como os portugueses que vivem no Reino Unido, ou a minoria moldava que vive na Ucrânia e a minoria húngara que vive na Roménia. São escalas diferentes mas são problemas que estão mais próximos de nós do que imaginaríamos à partida.

Ontem, em Kiev, a Plataforma que junta decisores políticos e representantes da Diaspora dos países que integram o Conselho da Europa, e que a partir de agora tenho o privilégio de liderar, aprovou um plano de ação muito concreto que passa claramente por integrar estes representantes das diasporas, que são verdadeiros agentes locais pois estão próximos das comunidades migratórias, na definição das estratégias de integração dos imigrantes ou refugiados nos países de acolhimento e cada vez mais também no apoio ao desenvolvimento dos seus países de origem.

Numa época tão crucial da crise migratória, a estratégia de integração de migrantes nos países europeus deverá passar a ser cada vez mais articulada com os líderes destas comunidades. Importa a todos, em conjunto, combater os extremistas e radicais que deturpam a cultura das suas comunidades. Urge também ultrapassar dificuldades e barreiras existentes como direitos políticos, a documentação, o acesso ao mercado ou o reconhecimento de competências. Na verdade, só através da boa integração destas comunidades conseguimos o verdadeiro acréscimo de qualidade de vida para todos, para os que chegam e a procuram mas também para os naturais dos países de acolhimento. A novidade talvez seja o destaque que é dado à criação de políticas que procuram garantir que estas pessoas têm um papel activo na regeneração ou desenvolvimento dos seus países de origem, factor que também nos compete a nós estimular.

Tal como aconteceu com a emigração portuguesa, os primeiros a partir são sempre as gerações mais novas, as mais qualificadas e ambiciosas, ou seja, as gerações que fazem mais falta ao desenvolvimento destes países. Há um enorme brain drain dos melhores quadros pelo que é urgente colocar a sua experiência e o seu conhecimento ao serviço dos seus países de origem. Acredito que estão nas respectivas diásporas os primeiros a investir, a aportar conhecimento, a transferir know how e a reforçar a qualidade quer das suas instituições quer da própria democracia.

A terminar, importa lembrar a parte da diáspora portuguesa hoje mais ameaçada, refiro-me aos nossos compatriotas que sofrem na Venezuela as consequências da irresponsabilidade do regime de Nicolás Maduro. Há aqui também uma crise de refugiados, muitos deles portugueses, que devem tornar-se o foco das nossa prioridades. Ao Governo português exige-se mais acção na defesa dos nossos compatriotas. É tempo de dizer basta à prudência e até a alguma tolerância que tem existido para com o regime da Venezuela com a esperança de que isso protegesse os interesses dos luso descendentes.