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Expresso

A encenação da Geringonça

A encenação da governação da Geringonça tem vários atores com papéis diferentes, com episódios diferentes, mas todos com a mesma narrativa: os sucessos resultam do governo, os insucessos são herança do PSD/CDS, da União Europeia ou resultam de manipulações das corporações ou da imprensa.

BE, PCP e Partido Socialista andam desde 2011 a defender o descongelamento e os aumentos das carreiras de professores, dos polícias, da administração pública em geral, a eliminação ou redução das portagens nas autoestradas, a redução do IVA em diversos sectores, a redução das tarifas do gás, da eletricidade, do imposto sobre os combustíveis, o fim dos apoios à banca, a melhoria da qualidade da ferrovia, dos transportes públicos, o fim da atual lei das rendas os aumentos salariais na função pública e sem esquecer o fim da obsessão pelo défice e pelas contas públicas, entre tantas outras coisas boas. Nada disto está feito apesar de já estarmos em julho de 2018.

Após três orçamentos de Estado e milhares de projetos de lei e de resoluções aprovados apetece perguntar: será que após três de governação os portugueses e o país estão melhor do que se o Governo fosse outro? O ritmo das reposições acelerou, mas depois parou. Será que o saldo de benefícios reais dos portugueses melhorou? A qualidade dos serviços públicos piorou. O Serviço Nacional de Saúde está pelas ruas da amargura e sobrevive graças à tenacidade dos seus colaboradores, os transportes públicos entraram em colapso e todos os dias se suspendem mais comboios ou autocarros, a escola pública está à deriva, a investigação, ciência e ensino superior estão em guerra com o Governo, a Proteção Civil colapsou e só graças às tragédias se viu algum investimento, o interior continua abandonado e até o PT2020 está quase exclusivamente ao serviço do Estado para substituir a falta de investimento do Orçamento público enquanto as empresas desesperam à espera respostas, a Cultura é um embaraço e da Defesa é melhor nem falar.

Quase todos dos dias ouvimos os partidos da coligação a revindicarem medidas populares que nunca impuseram como “linhas vermelhas” nas negociações do Orçamento de Estado. Se é assim tão fundamental para BE e PCP eliminar as portagens nas autoestradas porque nunca o impuseram num OE e só o fazem através de “projetos de resolução” que não obrigam o Governo? Se querem baixar os impostos sobre os combustíveis porque votam sempre ao lado do Governo contra as propostas da oposição? Se querem transportes públicos mais eficientes porque são coniventes com a falta de investimento público na ferrovia e nos restantes transportes públicos?

BE, PCP e muitos dirigentes do Partido Socialista continuam a ter dois discursos, um quando votam na Assembleia da República, que é sempre alinhado com a “cartilha de Mário Centeno” e outro quando falam à imprensa ou reúnem com a população. Com esta estratégia pretendem fazer de conta que estão no “poder” nas coisas boas e na oposição quando não defendem o que prometeram às pessoas ao longo dos últimos anos. Andam a enganar a população.

Se hoje é difícil satisfazer todos os anseios da população, dos sindicatos e das legítimas aspirações das pessoas, imaginem logo após 2011, após a bancarrota, com a troika por cá e o país sem qualquer autonomia. Apesar disso, entre 2011 e 2015, BE, PCP e PS nunca deixaram de exigir tudo aquilo que agora colocam de lado sempre que se sentam à mesa do “Secretário-Geral” da Geringonça, o Secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, ou do Primeiro-Ministro.

Esta encenação passa por colocar Governo, PS, PCP e BE tanto no papel de poder como de oposição. Fazem oposição a si próprios para dar a entender aos eleitores que não estão satisfeitos, mas na hora da verdade renegam tudo o que defenderam ao longo de anos.

Ferida de força e de legitimidade eleitoral, a gerigonça começou o seu mandato recorrendo às medidas mais populares, onde fez as principais cedências, para conquistar a simpatia das pessoas. Inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, teriam que enfrentar o difícil muro da realidade e o castelo de cartas que construíram começou a ruir precisamente pela quebra qualidade dos serviços públicos e pelo frustrar de demasiadas expectativas.