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Porque Passos ainda não acertou o passo?

Análise à sondagem do Expresso/SIC/Renascença. PSD não arranca. PS resiste. E Cavaco Silva está atento.

João Lemos Esteves (www.expresso.pt)

1) O PSD mantém-se, tendo como referencial a sondagem de novembro, como o partido preferido dos portugueses. No entanto, não há razões para se fazer já uma festa na São Caetano à Lapa: a diferença entre PSD e PS é de apenas 6%. Ora, o Governo anda num desvario total, os ministros contradizem-se, desmentem-se reciprocamente. José Sócrates apresenta falta de liderança e anda (ou andou sempre, com especial frequência nos últimos meses) lunático. Mais: o Orçamento do Estado apresenta medidas duras, difíceis, que impõem sacrifícios aos portugueses. No último mês, uma greve geral expôs o descontentamento de muitos cidadãos (mormente funcionários públicos, da educação e do setor dos transportes). Com um Governo completamente esfrangalhado, o PSD fica contente por ter mais seis pontos do que os socialistas - ainda distante de alcançar maioria absoluta! O PSD, por esta altura, dada a dimensão da incompetência do Governo, já deveria estar - sozinho!!! - no mínimo, no limiar da maioria absoluta! Os socialistas deveriam estar com mínimos históricos de intenções de voto! A verdade é que a sondagem é muito lisonjeira para o PS - aliás, afirmo mesmo que José Sócrates, o Governo e o PS em geral devem sentir-se reconfortados com esta sondagem. Porquê? Porque do PS, perante o cenário que tracei anteriormente, já ninguém espera nada! Sócrates já é tido como um primeiro-ministro pronto a fazer as malas para sair para bem longe de São Bento! Mas o homem resiste, resiste, resiste, resiste! Do PSD, espera-se muito! De Passos Coelho, exige-se mais! Muitos portugueses ainda não confiam no PSD. Algo está mal - volto a dizê-lo - na estratégia do líder social-democrata.

2) E o que está mal (ou menos bem) no PSD? Em primeiro lugar, a estratégia errante. Os ziguezagues constantes. Muitos sociais-democratas e líderes da opinião qualificaram como "vitória" a estratégia do PSD quanto ao Orçamento do Estado para o próximo ano. Sempre disse o contrário - aquela cowboyada montada por Pedro Passos Coelho, quando toda a gente sabia que ele iria acabar por viabilizar o orçamento, nunca o iria beneficiar. Tanto mais que depois aceitou negociá-lo e , portanto, o OE 2011 é um orçamento PS/ PSD. A sondagem do EXPRESSO mostra que o partido que saiu menos mal - aos olhos dos portugueses - na questão do Orçamento, foi o PS. O que é extraordinário! Mesmo com medidas difíceis, mesmo não sendo equitativas, os portugueses não penalizam o PS (sobe ligeiramente em relação a novembro) e não premeia o PSD (que desce ligeiramente em relação a novembro). É um facto: os portugueses não perceberam a estratégia do PSD. Não perceberam por que razão o PSD andou a criar suspense durante dias - para acabar como toda a gente sabia desde o início. Os portugueses não compraram essa do dar a mão ao país - e não ao Governo. Para o português médio, esse argumento não passa de música celestial (ou melhor, heavy metal porque as medidas do OE são pesadas, doem só de ouvir...);

3) Em segundo lugar, Passos Coelho é inconstante. Tem uma semana muito boa. Depois, uma semana disparatada. Vide o caso da entrevista aqui no Expresso a Clara Ferreira Alves, em que dá como certa a vinda do FMI. Então, tanto teatro para afinal quase apelar à vinda do FMI! Aí é que os portugueses ficaram completamente boquiabertos quanto à estratégia seguida. Pior: o PSD não se assume como alternativa, mas sim como mera alternância. Eu sinto que os portugueses estão fartos disto. Deste rotativismo sem alma, sem solução. O PSD está à frente por desgaste do PS - mas os portugueses desconfiam, daí hesitarem em dar uma maioria clara ao PSD. Recordo que Passos Coelho ganhou e beneficiou de um estado de graça assinalável porque representava a renovação da classe política. Ora, nós olhamos para os séquitos de Passos e são as mesmas caras dos últimos anos: Marco António Costa, Ângelo Correia, Miguel Relvas, Miguel Frasquilho, e por aí fora. Uma vez eleito, Passos esqueceu a renovação.

4) Em terceiro lugar, Passos Coelho não se afirmou como um líder. E há pequenos sinais que fazem os portugueses desconfiar. Um exemplo: Passos, mesmo em questões importantes, nunca fala em primeiro lugar. Miguel Relvas lança a bomba (como no caso da AD) e depois Passos Coelho ratifica (isto é, confirma, dá o seu acordo). Fica sempre a dúvida se Miguel Relvas - descendente do barrosismo e apoiante de Pedro Santana Lopes no Governo - não é o verdadeiro estratega do partido;

5) Esta sondagem deve levar muitos sociais-democrates a acalmarem-se da sua excitação pelo poder. Sobretudo, se tiverem na cabecinha que é certo que Cavaco Silva vai dissolver o Parlamento. Enquanto as sondagens derem o PS tão próximo do PSD, esqueçam - Cavaco Silva não arriscará manchar-se (ou seja, precipitar eleições para que a instabilidade se mantenha ou agudize ou o PS tenha possibilidades objetivas de vencer) . Em prol de ninguém;

6) A extrema-esquerda tem uma projeção de voto elevada (CDU e BE conseguem juntos cerca de 18%). Capitalizam o descontentamento popular. Um pormenor: apesar do PCP liderar o movimento sindical e do êxito (declarado) da greve geral, o BE passa o PCP nas intenções de voto. Uma tendência já consolidada? Sinal de que o PCP, com o seu ortodoxismo atávico, é cada vez mais uma realidade do passado, sendo os jovens de esquerda atraídos pelo folclore e populismo inconsequente do BE? A seguir.

Amanhã, aqui no POLITICOESFERA, vamos continuar a análise da sondagem, num aspecto muito particular - recordam-se que escrevi na terça-feira que o anúncio da AD, nesta altura, foi um erro monumental de Passos Coelho. Pois bem, será que a sondagem confirma ou desmente? Mantenho a minha posição ou tenho novos elementos que me fazem mudar? Darei a minha resposta amanhã. Também amanhã, há que ler a notícia sobre a sondagem na edição impressa do Expresso, para saber mais (v.g, margem de erro).