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Expresso

É preciso topete

Sócrates: a lebre para um novo ataque de António Costa?

Paulo Gaião

Sócrates pos ontem a nu o que já toda a gente sabia mas não valia a pena apurar porque não havia alternativa: António José Seguro não serve para líder do PS.

Em duas horas de entrevista, Sócrates conseguiu fazer o que Seguro não fez em dois anos de liderança.

Afrontou o governo e o Presidente da República como nunca se vira e marcou pelo menos para os próximos três anos a agenda politica, até ao fim do mandato de Cavaco.

Se, como parece cada vez mais provável, o governo cair e o país for para eleições antecipadas, Seguro tem hipóteses de se manter como líder? É quase impossível.

Seria como fazer a corrida com um Fiat 600 tendo um Rolls Royce na garagem.

A situação de excepção em que o país vive, legitima saídas excepcionais. Tudo pode ainda acontecer no PS.

Quando os socialistas perceberem que, num cenário de eleições, mantendo Seguro na liderança, o PSD capitaliza melhor a vitimização resultante do chumbo do OE por parte do Tribunal Constitucional e que o PS ainda arrisca a derrota.

Quando avaliarem o perigo de, perante a falta de motivação do voto em Seguro, o eleitorado de esquerda preferir, em protesto, votar no PCP e no Bloco de Esquerda, os socialistas vão por o instinto de sobrevivência de partido do poder à frente.       

Irão buscar Sócrates onde ele estiver, na RTP, em Paris, na multinacional farmacêutica do plasma sanguíneo.   

Resta saber quais os planos de Sócrates. O ataque demolidor a Cavaco na entrevista à RTP pode ter outras  leituras. A hipótese de Sócrates ser candidato a Belém em 2015 marcou pontos.

Neste cenário, o seu regresso pode ser visto como o inicio da pré-campanha a Belém

Porquê tão cedo? Porque o timing é perfeito, em cima da provável queda do governo. E para ser uma espécie de lebre da candidatura de António Costa à liderança do PS, cumprindo o pacto geracional de partilha do poder com o autarca de Lisboa.

Hoje, a fragilidade de Seguro é muito maior do que era há dois meses, quando Costa afrontou o líder. Ou seja, o autarca de Lisboa tem mais espaço de manobra para avançar.      

Tudo é possível ainda. Costa não ser, afinal, recandidato a Lisboa (até porque Seara não deve concorrer) e desafiar novamente Seguro com o apoio do Sócrates regressado.

Resta saber se os socialistas não batem o pé a Costa e só veem o ex-primeiro-ministro socialista à frente.  

Contra o cenário da candidatura presidencial de Sócrates está um perfil talhado para o confronto político (pouco consentâneo com a função presidencial) e para o exercício de funções executivas.  

Mas é verdade que há margem (e larga) para um novo estilo em Belém e presidências abertas pelo mundo fora em busca de investimentos para o país, um papel talhado para José Sócrates.