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Expresso

É preciso topete

Mário Soares: um problema chamado Nicole Fontaine

Paulo Gaião

Mário Soares está em roda livre. É a troika que só quer o seu dinheirinho, é o apoio com prazer à candidatura presidencial de Carvalho da Silva, é o capitalismo e as privatizações que ameaçam o espirito de Abril,  é o habitual marialvismo soarista, mandando a  senhora Merkel de volta à Alemanha de Leste e fazer-se esquecer, certamente no meio das lides domésticas. Cada dia é uma bomba.  Por detrás da aparente irreverência e do espírito novo num quase centenário , há por aqui muita amargura.

Como apaziguar este homem? Não é fácil. Aos 87 anos, Soares vê passar como um filme a sua longa vida política. Internamente quase tudo é glorioso, os tempos como MNE, a descolonização (que foi um desastre, mas que não lhe pesa na consciência), primeiro-ministro do I e II Governo Constitucional, o tapete tirado ao ex-Secretariado e a Ramalho Eanes mas o regresso como dono do PS e a vitória presidencial contra tudo e contra todos, Eanes, Zenha, o PCP,  Pintasilgo.

No plano externo, estão os problemas que o atormentam. Há a Europa connosco e a entrada na CEE. Mas os líderes com quem privou, fazem hoje parte da nebulosa memória, Olof Palme, Kreisky, Schmidt. E a União Europeia é hoje um barril de pólvora, fabricado com os medos do pós-guerra e as ilusões eurocratas.   Há o ami Mitterrand, uma amizade cultural a dois que não lhe deu craveira internacional, Viagens presidenciais em barda, de que se lembram as exóticas  à Índia de turbante e os banhos nas Seychelles. Quase turismo. E depois Macau, Carlos Melancia, o fax, Rui Mateus. Contas que a história acertará.     

Quando saiu de Belém, Mário Soares tentou obter o que lhe faltava: projecção internacional. Foi candidato europeu em 1999. Como deputado europeu tentou ser presidente do Parlamento Europeu. Era um cargo que lhe traria reconhecimento  e que podia ser o trampolim para outros no estrangeiro. Apareceu-lhe a francesa Nicole Fontaine à frente. Achou que, mesmo com uma maioria de direita desfavorável no Parlamento Europeu e acordos já celebrados entre os grupos políticos europeus, podia meter a francesa no bolso. Enganou-se e ficou fulo. Foi aqui que tudo começou e entrou em roda livre. É o seu Rosebud, o trenó de Citizen Kane, em busca de uma coisa que nunca teve.  

Disse que Fontaine tinha um discurso de "dona de casa". De outra geração e machista, Soares não percebeu  que a Europa moderna, sobretudo a do norte, já não tolerava pérolas destas. Hoje está rigorosamente no mesmo sítio onde deixou  Nicole Fontaine há mais de dez anos, quando diz que Merkel precisa de regressar a casa.... Se a chanceler alemã não tivesse a sua cara metade, só faltava dizer que não podia mandar na Europa porque... nunca tinha feito um homem feliz.    

A candidatura a Belém em 2006, atravessando-se no caminho do amigo de uma vida, Manuel Alegre, pode ter sido uma fuga para a frente já explicada por este desnorte.  Viu outros, que considera menos qualificados, vingarem lá fora, Durão Barroso, António Guterres, até Jorge Sampaio na luta contra a tuberculose e Vitor Constâncio no BCE. Ele ficou por cá. Nos piores pesadelos, quem sabe se não se lembrará de Salazar, que também ficou sempre por cá. Atormentado, vai disparando contra tudo e todos, hipotecando o que foi e o que fez, ao derrotar o PC na Fonte Luminosa, salvar o país da bancarrota com o FMI e abrir Portugal ao capitalismo financeiro.