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Expresso

O modo do tempo

Do dia para a noite.

António de Castro Caeiro

A luz da tarde esboça as coisas todas com contornos bem definidos. Solidifica-as. Torna-as nítidas. As cores das coisas não desbotam. O cachecol vermelho destaca-se dos Jeans azuis. Cachecol e jeans destacam-se da colcha da cama. A cama tem como fundo o chão de tacos de madeira castanha. O tecto amarelo serve de fundo ao candeeiro dele pendurado. As paredes brancas salientam a cama e toda a mobília. Os livros destacam-se nas estantes. Está tudo mergulhado numa atmosfera luminosa que define nitidamente os contornos dos corpos sólidos.

Ouvem-se os sons. Há pássaros a chilrear. Carros descem a rua ou passam a ponte. Eléctricos passam. Há vento. E chove. Um avião passa. Há barulhos mais ou menos indistintos na cozinha. Corre água no lava loiças. Faz-se café. Falam na televisão. Os vizinhos descem as escadas e conversam à janela. Na casa de banho alguém lava as mãos e na sala de estar alguém ouve música.

Cheira a chuva caída no asfalto. Alguém desce o passeio e sente-se a fragrância do seu perfume. Cheira a pão torrado e a café. Das janelas abertas vem a brisa da Quinta em frente e traz os cheiros das árvores e das flores.

Sinto a pressão das costas da cadeira e do assento. Do lado de dentro sinto a forma cilíndrica das pernas em contacto com as calças, com a T-shirt e a camisola. Nos dedos dos pés sinto a sua ponta em contacto com as meias. As mãos percorrem o teclado.

Entardece.

Os sons da vida atenuam-se, perdem volume. Não há trânsito e os carros que passam são esporádicos, como os aviões, e já não há transportes públicos. As torneiras talvez pinguem, mas não deitam água. Ninguém sobe ou desce as escadas e ninguém fala à janela. Talvez haja um transístor que emita uma canção. Tudo se abafa. Há um cão ao longe que ladra.

Talvez cheire a leite que sabe a fresco. E o tacto tem flanela e algodão como objectos.

A qualidade da luz muda do dia para a noite. A luz alaranjada faz desbotar as cores dos objectos. É a luz sombria que predomina. As coisas perdem os seus contornos bem definidos. A cama, a cadeira, a secretária, o candeeiro suspenso, confundem-se com paredes, chão e tecto. As árvores têm o céu como plano de fundo e destacam-se dele. São negras no tronco e negras na folhagem.

A luz apagada faz mergulhar tudo na escuridão. Qual é a cor dos objectos quando é noite? Para onde vai a cor dos objectos?

Fica tudo borrado. Os objectos tingem-se uns com os outros. Desbotam. A vista acomoda-se. As coisas tornam-se vultos, cubos, paralelepípedos. Ou então são silhuetas pretas e azuis muito escuras que se salientam umas das outras.

Depois a cor de origem escurece. Todos os objectos ficam da mesma cor. São vultos sem contornos. Há um azul predominante. O azul escurece. Os objectos ficam deformados e sem cor. E depois só há negro.

Anoitece.