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Expresso

O modo do tempo

Dias insólitos

António de Castro Caeiro

Há uma disponibilidade humana, para eleger o insólito como objecto de atenção. A palavra tem uma ênfase negativa. O sentido etimológico diz, porém, apenas: "o que não é costume". Significa, assim, o carácter distintivo de um dado acontecimento que causa perplexidade.

A estranheza do insólito rompe a sequência quotidiana do tempo. Faz explodir a aparente domesticação do tempo.

O insólito dá-se como ninguém quer a coisa. Mas Atinge-nos e configura-nos. Não se sabe por quê, nem de onde provem. Mas um dia insólito ficará para sempre à espera de nós na hora da nossa morte. Altera-nos convulsivamente a vida.

Passámos a ser o que não éramos. Ao mesmo tempo, porém, somos mais nós próprios depois desse dia nos ter acontecido. Esses momentos de tempo trabalham-nos intrinsecamente a essência do encaminhamento orientado na direcção de nós para nós.

Podemos pensar em diversos momentos que nos transtornaram mas que nos fizerem quem somos: "o primeiro dia de escola", "o primeiro mergulho atlântico nas férias grandes", "o primeiro encontro com alguém", "o primeiro encantamento", "a luz do sol da Primavera da infância". Cada um poderá pôr entre aspas os momentos em que se tornou o próprio si.

A erosão do tempo parece nivelar tudo pela acção da sua passagem inexorável. As Primaveras já não trazem o sol que inundava o corredor da casa da minha infância, são estações do ano que chegam depois do Inverno e partem antes do Verão. O primeiro mergulho de Verão já não é como antigamente, quando a praia da infância não estava à distância de Lisboa mas existia entre o último dia de Outubro e o primeiro dia de Julho. Já não encontramos no olhar do outro quem não víamos desde toda a eternidade. Já não nos vemos e já não somos vistos. E às vezes já nem isso importa.

Cada momento dá-se. Vem, vai e não regressa. Mas um momento não existe sem o anterior e o seguinte. Um instante de tempo não é inerte. Existe numa sequência. A sequência tem um sentido irreversível:- o da passagem sem regresso.

Contudo, o seu lance é o da totalidade do tempo. "Sob o olhar da eternidade", diziam os antigos, dá-se cada lapso de tempo das nossas vidas. Um olhar escondido abre-se com um golpe de vista num agora sempre de pé:- "nunc stans".