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Expresso

O modo do tempo

Da noite para o dia

António de Castro Caeiro

Acorda-se e é noite. Pode não saber-se quanto tempo falta para a hora de acordar. Há só escuridão.

Os olhos bem abertos enxergam somente negro. Tudo é um campo volumoso monocromático. É como estar mergulhado em águas turvas. O corpo sente-se do lado de dentro do pijama. A almofada debaixo da nuca e as cobertas recortam o corpo que acamam. Mais nada.

Aquele que adormeceu horas antes é o mesmo que agora ali está. Decorreu tempo desde então. Mas se eu não soubesse onde me tinha deitado não saberia orientar-me ou onde estava.

Aberta a porta, dá para o corredor. O corredor dá para as outras divisões da casa. As escadas levam até à porta do prédio. A rua dá para a cidade. Se descer à esquerda, vou dar ao Tejo. Se subir, à direita, vou dar à Capela. Mas nada disto é visto. Apenas sei que assim é.

É escuridão funda. Por mais que ande, vejo sempre o mesmo. Há um espectro de possibilidades com objectos invisíveis. O armário está à esquerda. Ao fundo, está a cadeira à secretária. Há livros nas estantes. Há peças de roupa espalhadas pelo quarto.

Tudo está, porém, opaco. Tudo está imerso na escuridão. Os contornos das coisas são texturas tácteis que emitem sons quando se vai contra eles.

Quanto tempo passou?

O tempo passa com o escoar-se da escuridão. A escuridão dissipa-se. A luz aflui inexoravelmente.

De onde vem a luz? Para onde vai a escuridão. A escuridão cede à luz. A luz substitui a escuridão. Vem a luz do sol? E a escuridão desaparece para lá da linha do horizonte?

Tudo clareia ao mesmo tempo a partir do interior da atmosfera. Diz-se: "ao romper da aurora".

Mas a escuridão resiste. Aloja-se no interior e no lado de traz das coisas. Infiltra-se em gavetas fechadas e bolsos das calças. Fica tapada entre a base dos objectos e as superfícies que os apoiam. Retira-se para o espaço que há entre os objectos e as paredes a que estão encostados.

Clareia. O escuro negro da noite cede ao azul ainda muito escuro da madrugada. O escuro clareia. O azul dilui-se aos poucos nos próprios objectos. E as coisas todas começam a ganhar perfil, cor, textura e posição. Ressuscitam. Cada um deles deixa de ser confundível com o outro. Cada coisa passa a existir no espaço que ocupa e já não fora de si. Todas as coisas passam a formar-se do fundo do dia.

Ouvem-se os sons da manhã. Pessoas descem as escadas. Carros passam na rua. Os pássaros acordam ao mesmo tempo. A atmosfera é límpida e transparente. Não se percebe para onde foi a escuridão.

Através das frechas da janela, do limiar das portas, das cobertas da cama, a luz tudo invade. Passa a ser o fundo e a frente de tudo:- o meio envolvente da vida.

É dia.