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Expresso

Keynesiano, graças a Deus

Não plante! O Gaspar não garante!

Nicolau Santos

Nicolau Santos

Diretor-Adjunto

O ministro das Finanças admitiu terça-feira no Parlamento que o ajustamento português "vai demorar anos até se assegurar uma posição orçamental prudente". "Serão necessárias algumas décadas para atingir níveis de endividamento público abaixo 60% do PIB previstos no Tratado de Lisboa", disse.

Quanto ao objetivo de atingir um défice estrutural de 0,5% do PIB "não será atingido antes de 2015". Finalmente, frisou a importância da redução permanente da despesa do Estado em quatro mil milhões de euros, mostrando-se convencido de que tal não implica uma revisão da Constituição.Duma penada, Vítor Gaspar destrói quatro mitos alimentados pelo Governo.

O primeiro é que o caso português se resolvia facilmente cortando as famosas gorduras do Estado. Não resolvia.

Segundo mito: que o ajustamento duraria no máximo até meados de 2014. O que Gaspar agora que nos diz é para nos desenganarmos. Isto vai demorar não anos mas décadas até conseguirmos uma dívida pública inferior a 60% do PIB.

Terceiro mito: a redução do défice estrutural também já não é para 2014. Para já, passa para 2015. E isto, claro, ficando dependente de inúmeros fatores, já que, como disse, em tempos conturbados, os resultados das políticas macroeconómicas são muito incertos...

Quarto e último mito: é possível cortar 4000 milhões na despesa pública sem alterar a Constituição. Esta conversa resulta da evidencia de que o PS não apoiará uma revisão constitucional. Vai daí, passa-se para o plano B - fazer o mesmo, ignorando a lei, neste caso a lei fundamental da República.

Ou seja, tudo o que nos prometeram - um ajustamento rápido até meados de 2014, regresso aos mercados em setembro de 2013, diminuição da dívida pública em percentagem do PIB, redução do peso do Estado na economia com corte nas gorduras - está posto em causa.

Há muitos anos, o então presidente brasileiro, general João Figueiredo, lançou uma palavra de ordem dirigida aos agricultores: Plante, que o João garante! Por aqui, é manifesto que não convém acreditarmos no que nos vai dizendo o ministro das Finanças, cujo discurso tem vindo a evoluir sempre para novas e piores supresas para quem o ouve. O lema é, pois: Não plante! O Gaspar não garante! Mas como é que assim se constrói o futuro?