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Expresso

A Europa desalinhada

Malmö tem a alma ferida

Há vários meses que um atirador solitário semeia a inquietação nas ruas de Malmö, uma cidade que luta para se livrar dos seus complexos e da sua imagem negativa.

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As informações que, este ano, chegam de Malmö estão envoltas numa espiral de confusão. Há já algum tempo que Malmö herdou a imagem de uma cidade onde as pessoas disparam umas contra as outras com muita frequência - subentenda-se: a delinquência dos bandos e dos imigrantes está a degenerar. E depois, como um golpe estranho de varinha mágica, a perspetiva mudou completamente e passou a falar-se da possibilidade de um assassino racista imitando o "assassino do laser de Estocolmo" [que fez as manchetes dos jornais no início dos anos de 1990]. Do dia para a noite, os culpados, os imigrantes tornaram-se vítimas. Mas o mal já está feito: na retina coletiva ficou impressa a imagem de uma cidade que incarna o falhanço da integração dos imigrantes.



Uma nódoa no paraíso sueco



Cada vez mais, Malmö destoa como uma nódoa no paraíso sueco. No entanto, tempos houve em que a cidade foi a Meca do modernismo, uma cidade pioneira para várias gerações de arquitetos do modelo sueco: a ponte de Øresund, o arranha-céus "Turning Torso", a cidade era um estaleiro permanente. Depois, em 2004, aconteceu: Steve Harrigan, da Fox News, enviou para os Estados Unidos uma reportagem que abria com estas palavras: "As autoridades suecas têm muito que fazer em Malmö, onde a imigração muçulmana explodiu (...). Os imigrantes estão furiosos e muitos pedem contas ao país que os acolheu (...). Um quarto dos habitantes da cidade é muçulmano". A reportagem refletia o costumado zelo da cadeia de televisão americana em apresentar a Europa como uma vítima indefesa da islamização. "Londristão" ou "Hamburgistão" são termos genéricos para evocar uma Europa que serve de asilo aos terroristas que querem planear atentados contra os Estados Unidos. A reportagem da Fox News deu início a um verdadeiro frenesim mediático à volta de Malmö. Toda a gente ia ao bairro Rosengård filmar a revolta dos jovens e mostrar a exclusão. Depois, os Democratas da Suécia [extrema-direita] conseguiram vários êxitos eleitorais [e entraram no Parlamente nas eleições de setembro]. E hoje, com a chegada de um novo "assassino do laser", deu-se a explosão.