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Expresso

Precisamos da Direita

Às vezes, no meio da discussão política diária, dou por mim a olhar para as diferentes bancadas parlamentares e a recordar-me (historicamente) do que foi preciso fazer para que o pluralismo partidário fosse uma realidade. Vem-me à memória a quantidade de páginas que que li da Assembleia Constituinte, esse momento fundacional da democracia. Vem-me à memória a pujança ideológica daqueles tempos, a inteligência de tantos – de todos os quadrantes políticos -, o tumulto político que rodeou a conquista de 1976 (aprovação da Constituição) e a esperança comprovada pela história de que estavam certos os que aprovaram uma lei fundamental que haveria de ser melhorada. Sempre tive por absolutamente legítimo e demonstrativo do carácter democrático do processo constituinte o voto contra do CDS, único Partido que não entendeu que o texto aprovado tinha tudo para dar certo.

Às vezes, no meio da discussão política diária, dou por mim a tirar o som aos “casos do dia” e a suspirar de alívio pelo que fizeram por nós: um sistema democrático que tapa extremismos à direita (graças à existência do CDS) e extremismos à esquerda (graças à existência do PCP), coisa que Mário Soares percebeu tão bem, quando uns gritavam contra o CDS e outros gritavam contra o PCP.

Muitas vezes, em 2018, no meio da discussão política diária, dou por mim com medo do que poderá estar a ser feito ao legado de um pluralismo partidário garante de tampão a populismos e extremismos.

Não concebo uma democracia sã sem a direita democrática razoável que conheço, mas a agenda política reacionária de certos setores dentro do CDS e de certos setores dentro do PSD, devidamente apadrinhada por um órgão de comunicação social (observador) retiram a perspetiva de longo prazo a gente de referência da Direita.

Não acredito que Assunção Cristas seja (realmente) neutra quanto à escolha entre um fascista (Bolsonaro) e um democrata, mas a líder centrista, como outras pessoas da Direita, prestaram um péssimo serviço ao futuro da sua área política por medo de perder o eleitorado reacionário.

Pelo caminho fica para a história a eleição de um fascista no Brasil sem que (tirando algumas honrosas exceções) se tenha visto qualquer crítica a Bolsonaro por parte da Direita e até tenha chegado aos nossos olhos a felicidade absurda de algumas pessoas pela eleição de Bolsonaro.

Precisamos de uma Direita que pense no longo prazo, que não ceda a agendas populistas, que não atue à conta de votos que não interessam, que não caia na agenda do Observador, que não dê espaço a reacionários.