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Expresso

Na Chamusca, os irmãos Coen cruzaram-se com os Monty Python (ou a última vitória de Joana)

Quanto mais se vai desenrolando o enredo de Tancos, mais parece que fomos transportados para um argumento de um filme. Mas não um qualquer. Um onde as desconcertantes histórias criminais de Joel e Ethan Coen parecem ter-se cruzado com a disparatada comédia negra dos Monty Python.

Tancos não é apenas uma grande história, é o espelho de um Portugal passado onde os egos se alimentam de um provincianismo bacoco, permitindo que as amizades e os compadrios sejam os verdadeiros atores. Mas é também, simultaneamente, uma história de esperança e de grande preocupação em relação ao futuro. Já lá vamos. Primeiro a comédia, depois a tragédia.

Entre o espanto de toda a operação que vamos conhecendo, é impossível não nos rirmos com o amadorismo, vaidade e estupidez dos elementos militares envolvidos. Fulano conhece sicrano, que conhece outro e juntos envolvem departamentos inteiros de instituições militares que contornam leis para serem vistos como heróis.

Quando em junho do ano passado foi descoberto o roubo de paiol de Tancos, não estávamos apenas perante o perigo de armas de guerra e explosivos serem vendidos no mercado negro. O roubo punha a nu todas as fragilidades da instituição militar e de como era gerida. Ninguém sabia que armas tinham sido roubadas porque nem havia um inventário atualizado do que estava guardado no paiol. O caso era tão absurdo que o ministro da Defesa, numa também absurda declaração, chegou a colocar a hipótese de nem sequer ter existido furto, ou seja, de que podíamos estar apenas perante um caso de total displicência.

Em toda esta história há duas pessoas fundamentais: Marcelo Rebelo de Sousa, que política e institucionalmente nunca deixou que o caso ficasse esquecido, e Joana Marques Vidal. Foi a futura ex-procuradora-geral da República que atribuiu a responsabilidade da investigação à PJ, depois de a PJM não ter sido no passado capaz de resolver casos semelhantes de desaparecimento de material militar

Tese desmentida pela recuperação do material roubado quatro meses depois, num descampado na Chamusca, a poucos quilómetros de Tancos. Entre o espanto de terem sido ali encontrados explosivos que nem sequer estavam na lista do que foi roubado, passou despercebida por que razão a GNR de Loulé, em colaboração com a Polícia Judiciária Militar, tinha sido vital na descoberta das armas.

Depois disso, ainda ficámos a saber que, afinal, nem todo o material tinha sido recuperado e que havia uma guerra entre a Polícia Judiciária Militar (PJM) e a Polícia Judiciária (PJ) sobre quem comandava a investigação, confronto que chegava ao ponto de os inspetores da PJ terem sido apanhados a colocar escutas a inspetores da PJM.

Hoje, segundo a investigação da PJ, sabemos que aquele núcleo da GNR sabia quem tinha feito o roubo, e que combinou, com a ajuda da PJM, a devolução das armas de modo a que colhessem os louros da operação. As armas tinham sido recuperadas, porém os assaltantes continuavam em liberdade. Mas isso era, pelos vistos, secundário. A vaidade, sempre presente em todo este filme tragicómico, desvenda a degradação total das instituições militares. E há importantes lições políticas a tirar nos próximos tempos.

Em toda esta história há duas pessoas fundamentais: Marcelo Rebelo de Sousa, que política e institucionalmente nunca deixou que o caso ficasse esquecido, e Joana Marques Vidal. Foi a futura ex-procuradora-geral da República que atribuiu a responsabilidade da investigação à PJ, depois de a PJM não ter sido no passado capaz de resolver casos semelhantes de desaparecimento de material militar.

Se é verdade que as instituições funcionaram ao ponto de se ter descoberto a alegada moscambilha montada por forças militares, o que nos dá uma certa garantia de que não estamos perante uma verdadeira república das bananas, fica também uma amarga preocupação. Já não há dúvidas de que Joana Marques Vidal foi vital no eficiência do Ministério Público. Por isso, cada vez menos se compreende porque foi afastada do cargo. Existe uma velha máxima desportiva que diz que em equipa que ganha não se mexe. Mas neste caso a vitória do Estado de Direito parece incomodar muita gente, principalmente os que continuam a usar os alegados benefícios do mandato único para justificar a sua não recondução.