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Expresso

Aparelho de Estado

Um país de merda

O mandato de Mariano Gago fica associado a uma lei que é xenófoba ou imbecil, não sendo de excluir - em rigor - que faça o pleno.
 

Vasco M. Barreto

Com o sistema que vigorava (bolsas por actualizar há muitos anos num país pobre e sem reputação científica), Portugal não era capaz de atrair estudantes estrangeiros de qualidade na área das ciências sem pátria (a Física, Química, Biologia e Matemática, nomeadamente).

Talvez se esperasse que o Portugal do "choque tecnológico" fosse criar condições para que os institutos portugueses pudessem mais facilmente competir com outros centros de investigação na corrida para os melhores alunos de todo o mundo. O que fizeram então os nossos governantes? Dificultaram ainda mais a vinda de estudantes estrangeiros. Se não fosse tão trágico, não complicasse a vida de tanta gente (estudantes que para cá vieram e precisam de renovação de bolsas, responsáveis de laboratório que ficam com a tarefa de reforçar as suas equipas dificultada, etc.), esta medida seria cómica. O país parece comportar-se como alguém que, sem atributos para atrair quem deseja, toma a iniciativa de dizer que não está interessado nessa pessoa. Isto para não falar da natureza profundamente xenófoba desta medida, que, como se não bastasse, atinge uma comunidade (a científica) por vocação e necessidade muito dada à livre circulação.

Concretizando, a Fundação para a Ciência e Tecnologia acaba de excluir do acesso a bolsas estudantes estrangeiros que não tenham um atestado de residência em Portugal passado pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (o que implica 5 anos de vida no país) ou que não estejam enquadrados em parcerias internacionais entre instituições - para que se perceba o carácter restritivo desta medida, o Instituto Gulbenkian de Ciência, um dos mais cosmopolitas do país, não tem nenhum dos seus estudantes estrangeiros nestas condições e não será certamente excepção.

A entrada foi escrita a quente e voltarei ao tema, mas era bom que o jornalismo desse a devida atenção a este assunto (ao seu significado simbólico e prático, ao argumento de que os impostos dos contribuintes são para gastar com portugueses - já o antecipo - e ao que se passa nos outros países da União Europeia). Com a ressalva de se tratar de um assunto da minha área profissional, o que gera sempre algum viés, se isto não é uma notícia ficarei com vontade de palmar gravadores a jornalistas nos próximos tempos - creio que a isto se chama "acção directa".