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Se non è vero, è ben trovato

Infelizmente, o plano para a salvação nacional proposto por Rui Tavares é tão irrealista quanto parece

Lourenço Cordeiro

A Grande Narrativa ainda não morreu. Sempre que oiço a esquerda a anunciar a solução para os grandes problemas da humanidade daquela forma tão leve e apaixonante que lhe é tão característica, dá-me vontade de ser de esquerda. O que só não acontece porque cometo o pecado de começar a pensar no modo de executar no terreno a Grande Narrativa.

Foi o que aconteceu durante a última edição do Prós e Contras, que contou com a presença de Rui Tavares que nos ofereceu a Grande Narrativa da noite. Numa daquelas raras oportunidades de falar mais do que 30 segundos sem ser interrompido dadas pela Fátima Campos Ferreira (ela interrompe qualquer convidado que não se chame "Professor Adriano Moreira" com apartes aleatórios que constituem um teste agressivo à capacidade de concentração do orador), Rui Tavares avançou com um plano que resolvia não um, não dois, mas três dos maiores problemas do país numa só iniciativa. O plano seria o seguinte (o raciocínio de Rui Tavares pode ser acompanhado a partir dos 29:30 deste vídeo):

Pegando nas 300.000 pessoas que marcaram presença na última manifestação contra a Crise, e partindo do princípio que grande parte delas estará desempregada, e que grande parte dessas terá mais de 50 anos, a ideia é pegar nessa gente toda e dar-lhes um emprego trabalhando na recuperação dos centros históricos do país todo. Tudo isto custaria "um terço de um submarino", ou seja, 300 milhões de euros. Pagos, evidentemente (como confessou Rui Tavares), pelo Estado. Ou seja, um, o desemprego, dois, a Crise, três, a degradação dos centros históricos. Se isto não emociona, não sei o que emociona.

Já estava eu a sair de casa para ir dar o nome para esta iniciativa (tenho emprego, mas o sentido patriótico da "recuperação dos centros históricos de portugal inteiro" falou mais alto) quando comecei a fazer as contas.

- Um suposto "Plano Nacional de Recuperação dos Centros Históricos das Cidades da República Portuguesa" não deixa de ser ambicioso, pelo que será pecar por defeito estabelecer um prazo de 10 anos para a sua execução.

- Para o cálculo no número de pessoas que Rui Tavares quer tirar do desemprego, vamos apenas contabilizar como amostra total as 300.000 pessoas presentes na manifestação, e não o milhão de desempregados, para facilitar. Vamos assumir que metade está desempregada (150.000) e que desses 1/3 tem mais de 50 anos e dificuldade em arranjar outro emprego qualquer. Estamos a falar, portanto, de 50.000 pessoas. Parece um número redutor, mas grão a grão, grão a grão.

- Consideremos ainda que do "um terço de um submarino", ou seja, dos 300 milhões de euros disponíveis para investir, cerca de 1/3 será destinado ao pagamento de ordenados às pessoas, ou seja, 100 milhões de euros. Temos então que, no nosso plano a 10 anos para recuperar Portugal inteiro, há 10 milhões de euros anuais para pagar a 50.000 felizardos.

Felizardos? Fazendo a conta, o Plano de Rui Tavares para salvar Portugal significa dar 200 euros anuais aos actuais desempregados. Não é grande coisa. Um número mais realista para a execução do Plano Tavares seria de 300 mil milhões de euros, ou seja, mil submarinos; mas "mil submarinos" já não fica tão bem na retória da Grande Narrativa, e o importante é dar às pessoas Grandes Narrativas que é isso que as motiva.

Fechei a porta de casa e voltei a ser de direita, mais uma tentativa de ser de esquerda pulverizada pela realidade, cheio de dúvidas e incertezas e sem vontade nenhuma de resolver os problemas do mundo.