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Se a esquerda quiser ganhar Belém

Faz-nos falta uma esquerda dotada de uma cultura de diálogo e capaz de convergências em torno de batalhas concretas. A candidatura presidencial de Manuel Alegre terá tantas hipóteses de vencer quantos passos der nesse sentido.

Miguel Cardina

O PS demorou cinco meses para perceber que não tinha alternativa senão apoiar Manuel Alegre. Mesmo tímido e resignado, este apoio não deixa de ser uma boa notícia. Muitos socialistas que já estavam com o coração - e o corpo - na candidatura podem agora envolver-se nela sem pruridos, ao mesmo tempo que muita gente que se situa nesta área política vê removido um importante obstáculo psicológico. Mas não nos iludamos: isso não chega.

Vimos nos últimos dias como a direita se prepara para apresentar unida em torno de Cavaco Silva. As declarações de Passos Coelho e Paulo Portas foram taxativas a esse respeito e as tentativas de engendrar uma candidatura alternativa por parte de sectores mais conservadores, descontentes com a promulgação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, embateram num muro de recusas. A direita é pragmática, já o sabemos. E é esse pragmatismo - associado a um confesso "mal estar" que soaristas e centristas do PS, por diferentes motivos, sentem diante da candidatura alegrista - que obrigará a esquerda que nela se reconhece a não ceder ao tacticismo extremo.

A função de um Presidente da República não é a de resolver a crise económica nem a de promover mudanças políticas a partir de Belém. Mas não deve ficar insensível aos apelos da rua - como o produzido pela gigantesca manifestação promovida pela CGTP, este fim-de-semana - nem calar-se perante os dramas humanos e as situações de injustiça que actualmente se estão a viver no país. Alegre ganhará se conseguir criar espaço à esquerda o que, entre outras coisas, permitirá esvaziar o discurso daqueles que acham que na primeira volta o voto serve para afirmar o espaço político porque, posteriormente, numa segunda volta, se tratará de accionar a unidade. O exemplo de há quatro anos mostra-nos a precariedade desta convicção. A disponibilidade de socialistas, bloquistas, renovadores comunistas e muitos independentes de esquerda para se empenharem nesta candidatura é um óptimo sinal: na verdade, faz-nos falta uma esquerda dotada de uma cultura de diálogo e capaz de convergências em torno de batalhas concretas.

Assim, tem relativamente pouco interesse discutir se é Alegre que está refém de Sócrates, se é Sócrates que cedeu a Alegre, se é o Bloco que está a fazer uma OPA não hostil ao PS ou se é este que está a neutralizar eficazmente os bloquistas. A realidade é sempre mais complexa do que estas leituras pouco ingénuas querem fazer crer. Mas uma coisa é certa: para se poder colocar em posição de disputar vitoriosamente as Presidenciais, nomeadamente a segunda volta que se avizinha, Alegre terá de saber fazer um discurso que não aliene a esquerda que agora, com o apoio do PS, se dispõe a votar nele "malgré tout". Se esse apoio torna mais fácil e natural a convergência com os sectores socialistas, não é possível a Alegre ganhar as eleições se não se dispuser a representar o mais amplamente possível a tal "esquerda sociológica" maioritária em Portugal.