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Saramago e os parolos

Um texto que não menciona Jorge Luís Borges.

Vasco M. Barreto

De vez em quando, vem à tona um velho argumento que podemos sintetizar da seguinte forma: como houve muitos escritores do cânone que, cumprindo os critérios de elegibilidade, não ganharam o prémio Nobel, não devemos dar grande importância a esta distinção. Este argumento é irmão de um outro, também velhinho, a saber: como houve muitos escritores premiados com o prémio Nobel que o tempo castigou, tirando-os do cânone, não devemos dar grande importância a esta distinção. Quando combinados, os dois argumentos aparentemente transformam o Nobel numa distinção de escola secundária atribuída a um bom aluno que anos depois viria a falhar a entrada na universidade. Em resumo, algumas pessoas julgam-se na posse de um segredo que resolvem partilhar: o de que o prémio Nobel não é necessário nem suficiente para definir um grande escritor. Só quando recuperamos desta desconcertante novidade damos conta de que não fomos expostos a uma lapalissada, que é apenas uma manifestação de desleixo cognitivo, mas sim a um raciocínio próprio de parolos, embora me custe ofender publicamente todos os parolos do mundo que jamais emitiram um pensamento sobre o prémio Nobel. 

Em teoria, só há duas formas válidas de diminuir a importância do prémio Nobel. Se alguém conseguir demonstrar que a lista dos 116 escritores premiados com o Nobel inclui menos escritores consagrados pelo tempo do que uma lista de 116 escritores activos a partir de 1901 feita aleatoriamente ou segundo um critério à partida irrelevante (digamos, os primeiros 116 de uma ordenação alfabética), então o prémio Nobel não vale nada. E se, ao repetir este exercício para todos os outros prémios literários, houver alguns que passam à frente do Nobel, então o prémio Nobel não deveria ser o mais prestigiado galardão. Como nunca vi este exercício ser feito, os que perdem o seu tempo a desvalorizar Saramago por causa do Nobel estão bem para os que apenas valorizam Saramago pelo Nobel. Afinal, o Nobel dá-nos logo uma opinião e dispensa a leitura de livros que - corre por aí - não "respeitam a gramática". Enfim, estou em pulgas para ver se Vasco Pulido Valente resiste ao fim-de-semana sem recorrer aos velhos argumentos.