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Expresso

Aparelho de Estado

Ricardo Rodrigues

Um gesto técnico belíssimo

Lourenço Cordeiro

Exactamente aos 00:46, Ricardo Rodrigues espreita pela primeira vez o gravador; aos 00:49 fá-lo uma segunda vez; e uma terceira aos 00:51: aqui, o plano já está em marcha e o criminoso pergunta, retoricamente, "o que é que quer que eu lhe faça?", com a ironia de que só os grandes artistas são capazes porque o criminoso já sabe perfeitamente aquilo que se prepara para fazer. O que se passa a seguir só está ao alcance dos predestinados: o criminoso dá início ao plano e, num só movimento belo e sublime, levanta-se da cadeira e faz escorregar a mão pelo objecto que descansa inocente em cima da mesa conduzindo-o subtilmente para o seu bolso, sempre com o cuidado de ocultar o objecto das possíveis testemunhas. Visto em velocidade normal o crime passa absolutamente despercebido; é preciso recorrer à slow-motion para nos maravilharmos com a técnica do movimento e a perfeição da sua execução. Não ficam dúvidas: estamos na presença de um mestre. A maestria é de tal ordem que quando o criminoso nos revela que tomou posse "irreflectidamente" (areia para os nossos olhos, ele também nos sabe manipular a mente) de "dois aparelhos de gravação digital", nós exclamamos: dois? Dois? O primeiro conseguimos descortinar, a custo, através da mais avançada tecnologia policial (o slow-motion), mas o seguindo escapa-nos por completo. Desde que vi o marido da Claudia Schiffer fazer desaparecer a Estátua da Liberdade que não via um truque tão bem feito.