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Repúblicas parlamentares não dão boas eleições presidenciais

As eleições presidenciais nas repúblicas parlamentares são eleições de segunda.

Vasco M. Barreto

As eleições presidenciais de 2010 entusiasmam menos do que as eleições de 1986.

Qualquer que fosse o desfecho, em 1986 a presidência ia passar de um militar para um civil e, nesse sentido, cumpria-se Abril. Pela primeira vez, creio, as campanhas foram muito profissionais; Soares era "fixe" e Freitas do Amaral lançou a moda dos sobretudos verdes Loden - isto quando José Mourinho, de 23 anos, provavelmente ainda vestia kispo. Não havendo vencedores na primeira volta, a decisão foi adiada para um braço de ferro entre Soares e Freitas. Como o país estava muito mais bipolarizado do que hoje, este confronto entre dois candidatos era natural e desejado. Com a voluntariosa ajuda do PCP, o underdog ganhou - Soares partira a uma enorme distância - e esse é sempre o desfecho mais interessante. Não é fácil, em 2010, reproduzir o frenesim de 1986.

Sucede que 1986 foi a excepção e 2010 é a regra. As eleições presidenciais só são entusiasmantes nos regimes presidencialistas (como os EUA) ou nas repúblicas presidenciais de regime semipresidencialista (como a França). Em Portugal, desde que me lembro, as eleições presidenciais são uma das manifestações da nossa democracia em que o entusiasmo forçado nunca disfarça o enorme bocejo. Como lembrou recentemente Passos Coelho, no seu empolgadíssimo apoio a Cavaco Silva, "não se governa a partir de Belém, mas sim a partir de São Bento" (cito de memória).