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Portugal finalmente explicado aos Portugueses

Percebemos melhor Pessoa do que Eliot, Sócrates do que Berlusconi. E não nos encontramos dispostos a abdicar dessa compreensão privilegiada (...) No fundo, o patriotismo existe porque as pessoas percebem melhor um objecto, o seu país, do que os objectos, os países, dos outros. Não tem a ver, directamente, com amor: tem a ver com o conhecimento, um conhecimento largamente involuntário. Os afectos, bons ou maus, vêm daí. Não são originários. Paulo Tunhas, via Pedro Lomba

Vasco M. Barreto

Isto não só está muito bem escrito, como é absolutamente verdadeiro e importante - uma combinação rara. Ao ler o artigo, qualquer pessoa que tenha vivido no estrangeiro vai senti-lo como uma epifania que trazia dentro de si e tardava em revelar-se. Afinal, gostamos de Portugal porque é o país que conhecemos melhor.  Ponto final. Se a explicação quase parece uma lapalissada, é apenas por ser tão luminosa e fácil de corroborar. Explica a falta de entusiasmo do imigrante recente pela política local desses países, mesmo quando é mais importante para o seu bem-estar do que o que vai lendo na imprensa do seu país natal; explica que gostemos de Fábio Coentrão; explica o interesse que o cidadão diferenciado e consumidor de imprensa estrangeira tem por Pacheco Pereira. Porque ele vê Pacheco Pereira como o maior especialista nas matérias do mundo? Nada disso, este cidadão esclarecido sabe que essa pessoa é Nuno Rogeiro. O fã de Pacheco Pereira segue Pacheco Pereira simplesmente porque se sente como o maior especialista do mundo em Pacheco Pereira. Pacheco Pereira, Portugal e as canções pop das playlists marteladas pelas rádios são gostos adquiridos.

Naturalmente, o patriotismo cognitivo  é válido para todos os países, mas a ideia passa melhor se for vista como uma idiossincrasia nossa, caso contrário - e por definição - perde interesse.

Este patriotismo cognitivo que Paulo Tunhas descreve, feito de um conhecimento largamente involuntário, esvazia de sentido quase tudo o que nestas alturas de maior entusiasmo geralmente se escreve na imprensa ? Esvazia.  E será que centenas de circunspectas páginas sobre portugalidade e os inúmeros debates sobre o país que Carlos Pinto Coelho e Fátima Campos Ferreira acumulam vão para o lixo? Antes pelo contrário. Porque os portugueses, involuntariamente expostos à portugalidade desde tenra idade, ficam sem assunto que lhes dê mais gozo discutir. Assim se faz um patriota.