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O povo é sereno

Já vimos o fumo e o fogo, mas ainda ninguém teve paciência de ordenar a evacuação ou de chamar os bombeiros. Se calhar o vento muda e pronto. 

Inês Teotónio Pereira (www.expresso.pt)

Sempre que assisto a filmes que descrevem as vésperas das guerras e das grandes crises, que me questiono com algum nervosismo, e até irritação: "Mas, porque é que esta gente não se pôs a andar dali mais cedo, porque é que não fizeram nada? Os sinais eram tão claros. Burros. Porque é que só reagiram no último momento, no derradeiro, naquele em que já não há nada que se possa fazer para salvar o dia, o país ou o mundo?"

Está claro que a minha arrogância advém do facto de saber em cada filme aquilo que vai acontecer a seguir. Por isso, os sinais parecem-me sempre tão claros, tão óbvios, tão alarmantes. Por exemplo, a Grécia. Em Outubro ninguém diria que o que está acontecer aconteceria. Mas desde 2008, pelo menos, que os sinais são alarmantes. Porque raio de carga de água é que os gregos não fizeram nada para evitar esta catástrofe? Não entendo.

Claro que Portugal é diferente. Só pode. Nada se irá passar em Portugal de tão grave. O Governo não é assim tão irresponsável. Óbvio. Cortamos um bocadinho daqui, outro bocadinho dali, o Passos Coelho dá uma ajudinha, o Cavaco dá outra, os mercados acreditam e pronto, voltamos à normalidade. Um bocadinho mais crescidos e maduros como povo e como país.Até porque se nós cairmos, colapsamos como a Grécia, cai a Espanha, o euro e a União Europeia, depois o dólar, os EUA, e é o fim. É uma desgraça. Por isso, alguém há-de encontrar uma solução para o nosso caso. É fundamental. E no final poderemos todos dizer: " Ufa, foi só um susto". Porque essas coisas dos grandes dramas, crises e misérias só acontecem nos filmes. E na Grécia. Mas cá não. Ou alguém já nos tinha avisado, e há muito tempo. Não era? Claro que era! Nós não somos como os gregos. Claro que não!