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Aparelho de Estado

O monstrinho das "escutas"

O nome "Face Oculta" foi absurdamente presciente. Começamos a perceber todos os detalhes de uma silhueta apenas pela forma como o fundo vai sendo pintado. Resta saber que pintores vão sair bem deste retrato.

Vasco M. Barreto

Pela voz de Mota Amaral, soube-se que as escutas a Rui Pedro Soares e Armando Vara não vão ser utilizadas pela Comissão Parlamentar de Inquérito ao negócio PT/TVI, depois de Pacheco Pereira, que as obteve das mãos de magistrados e com a aprovação do Procurador Geral da República, ter caracterizado o seu conteúdo como "avassalador". Bem sei que uma sequência temporal não é prova de causalidade, mas estranha-se a sequência. Entretanto, o mesmo Pacheco Pereira disse ontem na Quadratura que não fala agora mas falará mais tarde. Falará o quê e de que modo? Suspeito que falará sobre tudo o que envolve as escutas, menos das escutas propriamente ditas. Este zelo, incluindo o dele, mas sobretudo o de tantos outros, misturado com difusas tentações, tem produzido o estranho efeito de se ficar com uma ideia precisa do que são as escutas sem que seja preciso lê-las.

Se alguém dissesse que não iria contribuir com um único risco para o desenho de uma silhueta, pegasse depois numa folha preta e pintasse apenas o fundo branco, recortando a silhueta que, em rigor, não chegou a desenhar, estaria a fazer um truque de salão. O caso das escutas está a revelar-se como um truque parecido, mas parece resultar de uma vontade emergente e não propriamente individual, como se a defesa do Estado de Direito, da reputação de políticos e magistrados e de interesses partidárias tivesse criado um equilíbrio de forças que é um autêntico monstro. Vá lá, um monstrinho, pois agora só se pode falar do monstro grande que é o mercado.

Recomendação de leitura: tudo o que Pedro Lomba tem escrito nos últimos tempos sobre este assunto.