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Má-fé e má vontade

A diferença entre a má-fé e a má vontade, ilustrada. 

Henrique Burnay

Um acaso quis que reencontrasse este velho e detestável texto do Professor Pedro Arroja. Ali se explica, convictamente, que os judeus merecem o que lhes acontece porque, normalmente, estão a pedi-las. Como explica o cavalheiro, os judeus estão "sempre prontos a encontrar uma brecha por onde possam entrar e dividir" e, além de serem maus hóspedes, são mal agradecidos: então não é que "foi na Península Ibérica que os judeus foram melhor acolhidos e tratados ao longo de toda a sua longa história, por entre os múltiplos povos e lugares em que viveram. (?Mas) É claro que, mesmo aqui, acabaram por dar motivos para serem expulsos".

 

Lendo estas coisas extraordinárias do homem que em tempos surpreendeu o país porque achava que se devia privatizar as cadeias (coisa não tão revolucionária quanto isso, se estivermos a falar da sua gestão e administração), percebe-se bem o que é a má-fé. Arroja tem uma teoria sobre os judeus. Ou melhor, Arroja tem um ódio aos judeus que consegue justificar com exercícios de desonestidade intelectual. Ao dizer que deram "motivos para serem expulsos" o professor (onde se prova que o título não é garantia de coisa nenhuma) pretende convencer-nos de que aquilo foi merecido, como sempre, porque eles estão sempre a, vamos lá, judiar.  

O facto de alguém arrumar um povo inteiro  e uns quantos séculos de  História com esta facilidade intelectual é impressionante. E, não tendo outro nome, chama-se má-fé. E com gente de má-fé é impossível (e inútil) discutir.

 

O Zé Maria, pelo contrário, tem um problema de má vontade. Manifestamente não gosta de alguns católicos. Em vez de usar da má fé de Arroja, que no caso consistiria em teorizar sobre como são todos hipócritas, pega na sua má vontade cria uma tese: os católicos deviam fazer o que pregam: não fumar (faz de conta), não beber, não fornicar fora do casamento, não ir ao Bairro Alto (não está nas Escrituras mas chega-se lá certamente por interpretação extensiva das Ditas) e mais umas quantas coisas. O Zé Maria é (não sabe, mas é) um moralista.  Confundindo o dever ser com o ser, acha que quem defende uma coisa tem de praticá-la. Devia, mas é profundamente humano não o fazer. 

Para começar, podíamos recordar aos Zés Marias aquela coisa clássica de que a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude. Mas podemos ir mais ao detalhe, à ideia de pecado, de padrão, de certo e errado.

 

Ou, dito de uma maneira mais simples (tipo com laranjas): O que preferimos? Que quem passa um sinal encarnado passe a defender que não devia haver semáforos? Ou que reconheça que há sinais, que às vezes estão encarnados e que ainda assim passamo-los?  

Claro que o Zé Maria tem razão se estiver a pensar nos que dizem que não erram, que não falham. Mas o problema desses não é serem hipócritas, é serem falsos.

A hipocrisia é o que faz de nós bons humanos: conscientes do erro. Ao contrário do Professor Arroja, que é puro, que pensa mesmo aquilo. Não é hipócrita, é mau. Ou melhor, é parvo.  

De resto, Livrai-nos dos que se julgam livres de pecado (ou de erro). São perigosíssimos.