Siga-nos

Perfil

Expresso

Aparelho de Estado

Helena Matos fractura o latim

Enfim, é disparate, mas é um disparate muito rentável: as faculdades encheram-se de especialistas de género que viajam para congressos sobre questões de género, onde fazem intervenções sobre género.(...) Os partidos muito sensíveis "ao que está a dar" acham que devem falar sobre o género e ter deputados que fazem do género não só a sua temática preferencial como fazem do seu próprio género, ausência dele ou mudança dele o seu cartão-de-visita, quando não o seu currículum. Aliás, os parlamentos, associações e partidos ostentam hoje fulano que assume ser homossexual e cicrano transexual com o mesmo garbo exótico com que nas exposições coloniais de outrora se exibiam os chefes tribais africanos com as suas várias mulheres. Helena Matos, no Público

Vasco M. Barreto

A ensaísta Helena Matos tem a particularidade de pegar num tópico e ir subindo paulatinamente de tom, para saber com precisão quando transpôs o limiar que provoca uma resposta indignada. Aqui fica a minha: é ultrajante que as faculdades formem ensaístas incapazes de escrever a palavra "curriculum".

Naturalmente, fica no ar a hipótese de Helena Matos ter tentado uma reacção à entrada do símbolo "@" no abecedário, que forma agora palavras hermafroditas, isto é, com duplo género. Respondendo com as mesmas armas, Helena Matos terá introduzido acentos gráficos no latim, para reforçar as sílabas tónicas na língua-mãe, o que pode ser entendido como uma defesa da tradição, ainda que algo paradoxal - é complexa a mente de um ensaísta.

O problema da tese supracitada é que, segundo pelo menos um dicionário, o "cicrano" da nossa Helena escreve-se "sicrano", o que nos leva a pensar que Helena Matos, da pontuação à acentuação, passando pela ortografia, escreve como pensa: mal. Enfim, impõe-se uma ressalva, pois pode ser que o tal deputado sem género que só ela conhece assine "cicran@".