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Dez sugestões para a Feira do Livro

Nesta Feira do Livro há oportunidades que não se podem perder. Deixo aqui dez sugestões de dez livros para que o leitor possa ir encaminhadinho para o Parque Eduardo VII.

Tiago Moreira Ramalho (www.expresso.pt)

(1) Em A Segunda Guerra Mundial, publicado em Portugal pela D. Quixote, Martin Gilbert faz aquele que é definitivamente um dos melhores trabalhos sobre o mais destruidor conflito que a Humanidade enfrentou. A opção por uma "narração" cronológica dos acontecimentos dá ares de estória a este pedaço da nossa História. Pela escrita fluente, pelo detalhe e rigor e pela franca necessidade de conhecermos o momento em que se fez um avassalador reset no continente europeu, esta é uma obra que o leitor não pode deixar escapar.

(2) É difícil compreender como é que um indivíduo como Hitler, um inadaptado, nas palavras de Ian Kershaw, ascendeu ao poder e conseguiu conduzir a Alemanha e, com ela, o mundo inteiro para um dos mais trágicos períodos da História. Em Hitler, publicado pela D. Quixote, Kershaw tenta explicar-nos isto. Tenta explicar-nos como nasceu o Führer a partir de um homem perturbado de quem nunca esperou nada e que era, inclusivamente, alvo de troça na juventude. A resposta, longa, pode resumir-se numa funesta coincidência entre uma personalidade e uma conjuntura. Um livro fundamental, este.

(3) Portugal é conhecido por sempre ter tratado mal, muito mal, as suas elites intelectuais. Sempre, em todos os momentos, uma "elite" mediocremente amiguista soube, de uma forma ou de outra, sair da sombra tombando a árvore. Em Dedicácias, publicado pela Guerra e Paz, Jorge de Sena metaforiza e ironiza esse ambiente malsão nas pessoas de alguns literatos e académicos de então, todos alvos da perspicácia amarga do exilado autor. Os termos empregues por Sena nos seus poemas podem chocar uns e divertir outros, mas o "retrato cultural" que nos oferece tem pelo menos a valia de não ser consensual. O volume inclui o famoso "discurso da Guarda", de 1977, quando Sena, juntamente com Vergílio Ferreira, foi convidado para ser o orador oficial do 10 de Junho. Se alguém quiser conhecer Sena, pode começar por aí.

(4) Pastoral Portuguesa, a recolha de textos que Rogério Casanova, pseudónimo do mais interessante crítico literário português, publicou no seu blogue, editada pela Quetzal, mostra-nos, resumidamente, o porquê de, em pouquíssimo tempo, o "personagem" se ter tornado o fenómeno que se tornou. Esta recolha providencia-nos uma espécie de diário intelectual - e muitas vezes deliciosamente pessoal - com uma amplitude de temas avassaladora. O sarcasmo de Casanova vai da literatura à televisão, passando pelo futebol e fazendo, pontualmente, carícias a Pedro Passos Coelho. Divertidamente genial.

(5) Em A Mecânica da Ficção, publicado pela Quetzal, James Wood, um dos mais proeminentes críticos literários do nosso tempo, explica a Literatura ao comum mortal. Fazendo constantes referências às suas próprias referências literárias - Saramago incluído, para pesar, supõe-se, de alguns "críticos" portugueses - James Wood dá-nos um autêntico curso superior com aulas sobre, entre outros temas, a narração, a caracterização e o detalhe. A tradução ficou a cargo do excelente Rogério Casanova.

(6) Em Ofício Cantante, editado pela Assírio e Alvim, é recolhida a obra completa de Herberto Helder - incluindo o recentemente esgotado A Faca Não Corta o Fogo. Apesar de tardiamente descoberto, Herberto Helder assume-se hoje como um dos grandes poetas portugueses do nosso tempo e é uma referência para qualquer principiante. É, sem dúvida, um livro indispensável numa boa estante.

(7) As mil páginas de Pós-Guerra, de Tony Judt, editado pela Edições de 70, são indispensáveis para um franco conhecimento do mundo que vivemos. Explica-nos a nossa Europa. O que somos começou em 1945 e se queremos realmente saber o que somos hoje, é aí que temos de ir. Tony Judt ajuda-nos nessa tarefa. E, mais interessante, fá-lo enquanto se assume como um dos maiores entre os grandes.

(8) Em A Morte da Utopia, editado pela Guerra e Paz, John Gray, um conservador britânico e reconhecido filósofo, através de uma análise cuidada à história das ideias utópicas modernas e dos conflitos bélicos recentes, chega a uma conclusão interessante: durante séculos - após a Revolução Francesa - a humanidade acabou a dividir-se em credos seculares, isto é, ideologia utópicas, que foram beber mais do que se pode imaginar aos mitos religiosos dominantes até então. Gray defende que com a morte de tais ideologias, há um ressurgimento das fés antigas e que é este ressurgimento que temos de temer nas próximas décadas. Um livro imperdível.

(9) História de Portugal de Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Nuno Gonçalo Monteiro, editado pela Esfera dos Livros, é um texto notável, que consegue, de uma forma pouco usual, convencer a academia e interessar o grande público. Não é por acaso que o livro se manteve entre os mais vendidos do país durante várias semanas e já conta com várias reedições. Este é um texto que, além de consagrar os seus autores, traz ao grande público a possibilidade de obter conhecimento sobre algo tão basilar como a História do país.

(10) Opiniões Fortes, de Vladimir Nabokov, editado pela Assírio e Alvim, reúne um conjunto considerável de entrevistas que o autor de Lolita concedeu ao longo da sua vida. Em revistas claramente literárias, como a Paris Review, e em revistas menos literárias, como a Playboy, Nabokov manteve-se igual a si mesmo: um discurso que só poderia ser o de um dos grandes romancistas do século passado e um inconformismo, falta de complacência e, por vezes, pura maldade que, deixando o leitor apreensivo, obrigam-no, muitas vezes, a pensar seriamente naquelas palavras.