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Declaração amigável

Os críticos acérrimos do futebol e certos ateus têm um défice de capacidade de abstração - só entendem as paixões que conseguem sentir.  

Vasco M. Barreto

Ontem, ali para os lados do Saldanha, um benfiquista resolveu fazer inversão de marcha como se o título lhe permitisse uma interpretação pessoal do código da estrada. Quem também circulava por ali era eu, embora como se a realidade continuasse a respeitar as regras de sempre - as da física e aquela que faz com que o Sporting perca o campeonato antes de cada Natal. Pensei que o confronto destes dois mundos irreconciliáveis fosse fazer a alegria do meu mecânico, mas como não consegui depois perceber onde estava a marca daquele acidente, talvez por causa da densidade de amolgadelas e riscos antigos, apenas repreendi o homem, não sem deixar de lhe dar os parabéns pelo campeonato. Recebi um sentido abraço. Estávamos sóbrios.

Dos excessos de ontem, além das habituais agressões, bastonadas e do símbolo quase-nazi que é o da claque "No Name" a passear-se por Lisboa, foi impressionante ver uma águia embalsamada a ser atirada a uma fonte. Se a isto juntarmos a euforia anunciada do mundial que se avizinha, devem estar a eclodir as habituais reflexões sobre a "irracionalidade" da tribo do futebol, a "promiscuidade" entre poder político e bola, o "estatuto de excepção" dos dirigentes desportivos e o "escapismo". Por sorte, a simultaneidade dos dois eventos raros que são uma merecida vitória do Benfica no campeonato e a vinda de um Papa a Portugal facilitam a tarefa de demonstrar as semelhanças entre o discurso dos críticos do futebol e o dos ateus em relação à igreja católica. Irracionalidade? Check, acreditar num Deus não decorre forçosamente de uma interpretação racional da realidade e sobretudo não justifica reacções a roçar o fanatismo, plenas de intolerância e prepotência. Promiscuidade? Check, a laicidade é um processo em curso. Estatuto de excepção dos líderes? Check, check, os sucessivos escândalos de pedofilia são apenas o exemplo mais escandaloso. Escapismo? Xeque-mate, mas não pretendo aborrecer ninguém.

Não aborrecer. É uma posição de princípio. Aquilo que os críticos do futebol e os ateus praticantes não percebem é a completa inutilidade das suas críticas quando proferidas nos períodos mais festivos para os grupos que contestam. As críticas tendem a surgir sempre nas piores alturas e esta é mesmo uma regra geral; afinal, também a crítica mais aguda à política de prevenção dos incêndios de Verão costuma ser feita enquanto a floresta arde. Mas o comportamento dos críticos de futebol e de certos ateus é dos mais irritantes porque parece ignorar ostensivamente a origem da discórdia. E a origem é muito simples: uns têm (pela bola ou por Deus) uma paixão que outros são incapazes de sentir. Querer discutir a loucura da bola ou os exageros da fé em pleno mundial de futebol ou durante a visita de um Papa revela que o interesse na discussão é menor do que o interesse na (má) propaganda. Percebo que se trate de um apelo irresistível. Ainda ontem, na SIC notícias, quem comentava a imprensa era um elemento do Portal Ateu, que nas próximas décadas não deve voltar a ter oportunidade de exibir na televisão o crachá que trazia na lapela, um "A" vermelho (a iconografia ateísta fascina-me). Sucede que discutir numa altura em que a paixão está engrandecida e a susceptibilidade à flor da pele é promover a própria irracionalidade que se critica ou então só faz sentido para quem pensa que poderá convencer alguém a não se apaixonar tanto, o que é - em si - irracional, além de pouco educado. Longe de mim querer interferir nas paixões das pessoas.

A paixão de um só deve terminar onde começa o nariz dos outros, excepto para os fetichistas de pendor otorrino, obviamente. Talvez seja importante defender a importância de tolerar as paixões alheias. Se o fizermos, pode ser que o Pacheco Pereira e o João Gonçalves da geração vindoura deixem de um dia criticar os ateus para no dia seguinte, quando cirticam o futebol, se comportarem como ateus fervorosos.

Para que não sobrem dúvidas neste mundo onde só há lugar para os contrastes fortes, exemplifico a minha posição. Assinar nesta altura uma sóbria petição para a promoção da laicidade? É uma boa ideia. Distribuir preservativos na periferia do ajuntamento popular que vai ver Bento XVI? É um convite para que alguém seja lançado às águas das fontes do Rossio - embora, frise-se, sem um passo intermédio de taxidermia (aqui houve um progresso civilizacional mensurável).