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Aparelho de Estado

Crise? Qual Crise? Queremos ser felizes agora.

No plano "racional" concordamos com todas as medidas de austeridade e com todas as reformas necessárias, mas temos um grande empecilho (que é, ao mesmo tempo, uma grande virtude): vivemos ao pé do sol e queremos ser felizes agora.

Tomás Vasques

As medidas de "austeridade" ontem anunciadas pelo primeiro-ministro, com o apoio do maior partido da oposição, não surpreenderam ninguém, tal era a sua inevitabilidade. Vieram agora e não antes, como muito boa gente pedia e é inútil qualquer exercício sobre o momento "adequado". A "crise grega", a pressão dos credores exercida através das classificações das "agências de rating" e a "preocupação franco-alemão sobre a necessidade de "estabilidade do euro" decidiram o momento "oportuno". O resto, é uma discussão que serve apenas para alimentar egos e vaidades dos que pensam que tiveram razão "antes de tempo". Há quase três anos - em Agosto de 2007 - as ilusões do crédito fácil (às empresas, às famílias e aos Estados) e do milagre da multiplicação dos pães (simbolizada na sociedade de investimentos do senhor Modoff, muito respeitada na Wall Street), assentes no crescimento "eterno" do consumo, levaram ao colapso financeiro. Alguns bancos arderam nas chamas que os próprios atearam; outros foram salvos com dinheiros e avais dos contribuintes. Países, como a Islândia, quase foram na água do banho. A partir daí, todos disseram que estávamos a viver a maior crise mundial desde os anos vinte do século passado e quase todos disseram que, depois desta crise mundial, nada voltaria a ser como antes. Mas, no fundo, todos (empresas, famílias e Estados) acreditaram, a todo o momento, que podíamos andar à chuva sem nos molhar; acreditaram no "regresso ao passado". Qualquer indício, mesmo insignificante, de "retoma" era suficiente para governantes decretarem o "fim da crise" e governados se dirigirem de imediato ao "Multibanco". Agora, talvez se perceba melhor que não basta a consolidação orçamental, a que o grosso das medidas de "austeridade" ontem anunciadas se destina. Ainda temos de resolver o elevado endividamento externo. E nada disto se consegue de modo duradoiro sem profundas alterações que melhorem a competitividade do tecido económico, sem reformas que diminuam significativamente o peso (e os gastos) do Estado na sociedade e na economia e sem muita poupança e muito trabalho. No plano "racional" concordamos com todas as medidas de austeridade e com todas as reformas necessárias, mas temos um grande empecilho (que é, ao mesmo tempo, uma grande virtude): vivemos ao pé do sol e queremos ser felizes agora.