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Cegueira e Ignorância

Juntar o aborto e o casamento entre homossexuais no acostumado discurso da "família", em Portugal, é tão absurdo quanto comum, infelizmente.

Tiago Moreira Ramalho (www.expresso.pt)

Ao misturar, como é habitual, o aborto e o casamento homossexual no conjunto de "ataque à família", a Igreja - e alguma "direita" "conservadora" - apenas conseguem, de uma assentada, deitar por terra toda a argumentação lógica sobre ambos os temas. Curiosamente, nenhuma destas questões está directamente ligada àquilo que penso significar - julgo que ninguém tem certeza - "família" para os supracitados.

Em primeiro lugar, e julgo que não é necessária grande explicação sobre este assunto, a legalização do casamento homossexual não ataca - mesmo que atacasse, não havia problema, mas vamos evitar essa via - qualquer instituição familiar. Nem no sentido estrito de "ataque", pois não me parece que os homossexuais queiram juntar trapinhos para fazer mal a alguém, nem em qualquer outro sentido, como é, segundo dizem, a diminuição do número de famílias "padrão" - costumam os homossexuais formar famílias "padrão" quando não podem formar das "outras"? E mesmo que costumem, é legítimo que lhes imponhamos isso?

Em segundo lugar, o aborto não "ataca" qualquer instituição familiar, pois a verdade é que a "família" é independente do número de filhos, ou, até, da existência de filhos - pais estéreis não têm "famílias"? O problema do aborto é outro e de ordem muito mais profunda. É um problema moral, de direito à vida, de direito à concretização daquilo a que João Pereira Coutinho há uns anos chamou de "promessa de vida" e sobre o que escrevi há uns tempos. Nada tem que ver com a "família" e englobá-lo no dogmazinho reaccionário que os nossos tempos preferem apenas dá força a quem o quer permitir.

Podemos, hoje, dar-nos por muito felizes por os homossexuais poderem, finalmente, constituir famílias. É uma vitória da Esquerda e dos Liberais, não o neguemos. Infelizmente, por termos uma "direita" "conservadora" essencialmente idiota, pequenina e agarrada mais à Fé que à razão, quando é a razão que, no nosso tempo, e felizmente, faz Lei, atrás da liberdade para os homossexuais viverem a sua vida, vieram outras "liberdades", como esta de interromper voluntariamente a gestação, de permitir, curioso paradoxo, que se ponha termo a uma vida num prazo definido, como se um filho pudesse ter garantia. É disto, de cegueira e de simples ignorância, que sofremos. E, pelo andar da carruagem, não se avizinham grandes evoluções.