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Casamento homossexual: e agora?

A lei do casamento gay não é um "aborto jurídico", é outra coisa.

Vasco M. Barreto

A saga que foi a aprovação da lei do casamento entre homossexuais não poderia ter terminado de melhor maneira. A uma lei profundamente contraditória e com uma dimensão simbólica de fachada, por promover a conjugalidade à custa de comprometer a parentalidade, fica bem ter um pai à força e também de fachada (Cavaco Silva). A uma lei profundamente contraditória, fica bem que o adiamento amuado da sua promulgação pelo Presidente acabasse por fazer a data coincidir com o dia em que se celebra a luta contra a homofobia - obrigado, senhor Presidente. A uma lei profundamente contraditória, fica bem que um dos principais argumentos contra a sua discussão e aprovação - não ser uma "prioridade" - voltasse a ser agora usado por Cavaco Silva mas para justificar o contrário. Isto é a realidade a escrever um belíssimo guião e fica a ideia de que Deus foi substituído pela equipa do Yes, Minister, a mítica série da BBC sobre o ridículo na política.

Ao contrário do que disse o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, esta lei não é um aborto jurídico. A lei é antes um "prematuro jurídico". Agora que nasceu, precisa de cuidados intensivos. Naturalmente, isto é, como se a sociedade fosse um organismo vivo que se regesse pela lei da homeostasia, terminado este primeiro capítulo regressámos imediatamente à "normalidade". Bastou ouvir as declarações dos partidos à comunicação de Cavaco Silva. O PP ficou triste, o PSD subscreveu o que o Presidente disse, o PS celebrou o momento histórico e mais não disse, não ouvi o PCP mas adivinho e o Bloco recuperou de imediato a liderança perdida, ao relançar a questão da adopção. Com parte da sociedade irritada, agora é só esperar - talvez rezando - que também o bloco central faça da adopção uma bandeira de modernidade. O que pensará Passos Coelho? O que pensará António José Seguro? E quantos anos demorará este prematuro a sair da incubadora? Até lá, o "superior interesse" das crianças dos homossexuais estará comatoso e o coma foi induzido. Não duvido que os activistas sentirão o peso acrescido desta responsabilidade. Mas só me resta desejar que todos os outros reconheçam também a nova prioridade.