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O que João Galamba fez não se faz

Lourenço Cordeiro

A Economia não é uma ciência exacta apesar dos números e das tabelas. Não se trata apenas de fazer contas: trata-se da utilização de certos instrumentos (aqui entram as contas) para tentar compreender o mundo e antecipar comportamentos sociais. Contrariamente ao que disse Cavaco um dia, duas pessoas inteligentes na posse da mesma informação não estão obrigadas a chegar à mesma conclusão.

Não é preciso reflectir muito sobre este tema para percebermos que o que o João Galamba fez e que deixou o PS aos pulos foi extremamente desonesto. A confrontação entre o discurso político e o discurso profissional (e, lembremos, institucional) de Miguel Frasquilho com vista à desacreditação do primeiro (a alternativa seria um golpe ainda mais baixo, a tentativa de desacreditação da actuação profissional de Frasquilho) ficou mal a Galamba.

Primeiro, porque o documento que Galamba cita e que Frasquilho assinou, é um documento institucional do BES: não é, como parece, uma entrada no diário sentimental de Frasquilho. Miguel Frasquilho, enquanto quadro superior do BES, não se pode dar ao luxo de fazer do BES o veículo para a sua actuação política nem o depositário dos seus caprichos. Mesmo que o documento contrariasse totalmente as posições públicas de Frasquilho (o que não acontece, atenção) isso não faria de Frasquilho um "mentiroso" (como acusa Galamba): numa instituição, numa equipa, não se espera que todos pensem do mesmo modo. 

Mas mais importante do que isto, o que o João Galamba finge que não percebe é a absoluta necessidade que o BES tem em promover a economia portuguesa para atrair investimento estrangeiro. O documento que Frasquilho assina não é uma análise académica do estado da economia portuguesa: é um documento comercial que decide valorizar os aspectos da actualidade económica que são mais importantes para o sucesso da actividade do BES no estrangeiro. E o sucesso da actividade do BES no estrangeiro é um dado que o governo e o PS devem acarinhar com todas as suas patrióticas forças.

Miguel Frasquilho tentou explicar isso dizendo, e muito bem, que para o exterior "somos todos portugueses", mas o soundbyte estava lançado. E a ideia subjacente ao ataque de Galamba ficou: quem tem por actividade profissional as relações económicas com o estrangeiro está proibido de intervir na política nacional. O que não deixa de ser uma atitude incompreensível quando se apela constantemente à "exportação" de bens e serviços como meio de sairmos da crise.

Ou seja, uma baixaria.