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A "poliamoria" deve ser uma canseira

A propósito, faço parte de um grupo (hetero/homo/bi) que reflecte sobre poliamoria (além de praticá-la). Não mete boilo de noiv@s, mas reúne gente que de formas diferentes vai tentando de forma honesta propor e viver outras coisas que não a monogamia a dois, não necessariamente melhores ou com menos problemas, não faço a apologia, mas sim, que estas pessoas entendem como mais honesta. Sérgio Vitorino

Vasco M. Barreto

Sérgio Vitorino geralmente sabe do que fala, como aqui. Mas o texto supracitado é absurdo. Curiosamente, sofre de excesso de honestidade. Como se lê, ele e o seu grupo propõem, de forma honesta, um modo de relacionamento que entendem como mais honesto que a monogamia a dois.

Reparem: Vitorino não faz "a apologia", apenas parece propor que os chatos dos monogâmicos são uns hipócritas, o que é muito mais fino como diplomacia. E o excesso de honestidade do parágrafo de Vitorino não é redundante, como se poderia pensar com uma leitura distraída, porque já é possível em Portugal propor honestamente algo desonesto. Refiro-me obviamente ao caso de corrupção protagonizado por Domingos Névoa, que, segundo a justiça portuguesa, fez uma proposta desonesta mas com grande honestidade.

Aliás, devemos também considerar o cenário em que se propõe com desonestidade algo desonesto. É o que acontece quando um bandido faz um acordo com outro para roubar um banco sabendo que o vai atraiçoar.

E sobra, em teoria, o caso em que se propõe de forma desonesta uma prática que se entende como a mais honesta. Em teoria  e na prática. O exemplo é fornecido pelo próprio Vitorino, tendo em conta o contexto em que surgem as suas palavras, não se sabe muito bem se voluntariamente ou não. Afinal, vir neste momento com a invenção da "poliamoria", que é - ok - "honesta", quando o casamento homossexual ainda é um processo em curso (falta discutir a adopção), não será desonesto? Na prática, Vitorino conseguiu com um singelo parágrafo algo muito difícil: credibilizar retroactivamente quem usou o argumento de que a seguir ao "casamento gay" iríamos ter a poligamia.

Para que não haja confusões: não tenho nada contra a "poliamoria", creio que o vaior de uma língua se manifesta também pela capacidade de inventar sinónimos que substituam palavras com má reputação e desejo que os adultos se entendam como bem entenderem, mas passo bem sem o proselitismo de Sérgio Vitorino. Para propostas extenuantes - se amar uma pessoa é uma carga de trabalhos - já há uma entidade devidamente credenciada: o personal trainer.