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Aparelho de Estado

A nossa crise não se resolve (só) cá dentro

Em Portugal, discute-se a crise numa perspectivamente essencialmente portuguesa, por vezes europeia, raramente mundial. Está mal.

Vasco Campilho (www.expresso.pt)

Isto não sucede porque nós sejamos especialmente provincianos. Não: sucede porque a politização do debate económico assim o impõe. Temos um partido que está no Governo há 15 anos quase ininterruptos, período durante o qual aumentaram significativamente o endividamento do Estado, o endividamento externo, o endividamento das famílias, enfim, todos os endividamentos possíveis. E agora que estamos numa crise da dívida, convém muito a esse partido dizer "não não, não fomos nós, temos que colocar a crise em perspectiva mundial". Evidentemente que os seus opositores, fulos com a chico-espertice, terão que responder "nada disso, não se safam VExas tão facilmente da vossa responsabilidade. Se Portugal está no olho do furacão, a culpa é das vossas políticas erradas" Com toda a razão, acrescento eu.

E no entanto... temos mesmo que colocar a crise em perspectiva europeia e mundial. Desde logo porque temos voto na Europa e voz no Mundo. É verdade que somos pequenos, mas não convém exagerar a nossa insignificância: se fazemos manchetes na imprensa financeira internacional, algum relevo devemos ter. Mas sobretudo, temos que colocar a crise em perspectiva europeia e mundial porque é nessa perspectiva que podem ser pensadas as soluções, incluindo as soluções às raízes nacionais da crise portuguesa.

É que se formos a ver, não há nenhuma estratégia económica nacional que possa resultar de forma independente do que for feito a nível europeu e mundial. Isto torna-se evidente quando pensamos em termos de balança comercial. Reequilibrar a balança comercial portuguesa é fundamental para estancar o endividamento externo do País e relançar o crescimento da economia. Mas fazê-lo como? Aumentando as exportações para a zona euro? É difícil enquanto a zona euro tem um crescimento anémico, com a Alemanha a restringir o crescimento da sua procura interna. Aumentar as exportações para fora da zona euro? Para Portugal, economia pequena e aberta, parece uma boa solução. Mas a zona euro já é excedentária a nível mundial, e se todos os outros países do euro procurarem fora o crescimento que não encontram dentro, não há dúvida de que haverá uma reacção proteccionista do outro lado.

A nível mundial, tal como a nível europeu, a solução tem de passar pela resolução dos desequilíbrios macroeconómicos globais. Não se pode esperar dos países deficitários que reponham a sua competitividade e equilibrem as suas contas externas sem que os países excedentários tomem o seu lugar como motores do crescimento económico. Para Portugal, é claro o que temos de fazer cá dentro. Mas deve ser igualmente claro o que devemos defender que seja feito lá fora.