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A agenda de Mário Claúdio

Um Rosto ao Espelho

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

No segundo volume do seu diário, Os Dias e os Anos, atinente ao período de 1970 a 1993, e agora publicado, prossegue Marcello Duarte Mathias a análise das horas que anda a viver, projectando por tabela uma imagem da pessoa de todos nós, cidadãos do mesmo país, e falantes de uma língua comum. A infrequência com que por cá surgem anotações do género, e no caso presente marcadas por singular serenidade, convida a que se festeje o livro com entusiasmo, e com reconhecimento. Cada vez falham mais os espelhos em era timbrada pela desfocagem globalista, e cada vez mais se dissolve o rosto nas feições apagadas da multidão.

O diagnóstico de um Portugal arquetípico, menos surpreendido nas manifestações da saúde do que nos sintomas da doença, atravessa as páginas de Os Dias e os Anos como uma luz de fundo de cena. E aí se nos apresenta um quadro em que "o sebastianismo é a nossa maneira de homenagear a morte", e em que se ilustra "o gosto pela infelicidade" que faz de nós "raça de hímen complacente", mergulhada na "inveja (que) é o segredo de toda esta gente e a gazua que lhes desvenda a alma". Contra um tal horizonte destacam-se os actores da política, da diplomacia, e sobretudo das letras, um Eduardo Lourenço, dotado de "verdade humana e literária de indiscutível valor", um Saramago que "já reprime mal a volúpia do sucesso que visivelmente o deslumbra", ou uma Agustina Bessa-Luis, movida pela "presunção doutoral."

Não resiste Marcello Duarte Mathias a alguma abundância de citações, essa que ele tem, e acertadamente, por chaga dos nossos escritores, convocando em defesa dos seus pontos de vista Oliveira Martins, Manoel Laranjeira, Jorge de Sena, ou Jaime Cortesão, para aludirmos tão-só aos portugueses. Mas nunca executa "a martelo" tal tarefa o autor de Os Dias e os Anos, o que nos permite concluir pela superioridade dos códigos de uma carreira em que se aprende a evitar o excesso.

Sobrevoado pela ubiquidade da morte na persistência da vida, e "não crer em Deus é morrer duas vezes", o diário de Marcello Duarte Mathias ascende ao estatuto de "documento", se por isso se entender o testemunho partilhável, e a solidariedade na descoberta do Mundo.