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Expresso

A agenda de Mário Claúdio

Perfil da Feira do Livro

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

Concebida como um rito de sagração da Primavera, a Feira do Livro prossegue objectivos vários, entre os quais se situa o meritório, posto que só vagamente formulado, de pôr a ler a malta toda. Na ideia dos grandes optimistas, decorrido o período de funcionamento da Feira, baixará de drástica forma a taxa nacional de iliteracia, e subirá em flecha o consumo de óculos para a vista cansada. Entre uma coisa e outra perdurará a lembrança dos beijos e apertos de mão, trocados com os autores de serviço, e do afanoso folheio dos exemplares patentes no escaparate das barracas, tudo isto zurzido pela chuva miudinha da estação, ou pelo vento que levanta os plásticos protectores da bibliografia à espera do adequado freguês.

É certo e sabido que o leitor "a sério" resiste a frequentar a Feira do Livro, não apenas pela consciência que possui de que nela não achará mais do que o déjà-vu, mas também pela pedante convicção de que para as massas ignaras, ou sobretudo para essas, se inventou semelhante modelo de difusão da Cultura. Que recordem porém ambos os colectivos, o dos visitantes ingénuos, e o dos reticentes parvalhões, as duas máximas que entre si se complementam, a de que não vá o sapateiro além dos sapatos, e a de que presunção e água benta cada qual toma a que quer! Mas se a Feira continua a mobilizar o interesse dos media, é porque aproveita aos grupos editoriais, e propicia o encontro dos amigos antiquíssimos nesta era de escassa respiração ao ar livre. Não tem a Feira do Livro contribuído entretanto, o que se mostraria muito mais útil, para avaliar o que lêem, ou o que não lêem, os portugueses, e de que espécie de leis se alimentam os nossos hábitos, ou os nossos desábitos, de leitura, ensinamento que nos proporcionaria talvez algumas armas para reagir contra um fenómeno que entristece tanta gente, o de não se ler em Portugal senão jornalecos desportivos.

De que vale em suma a Feira? Desloca-se a ela o cidadão comum, a fim de verificar se é feito de carne e osso o premiado com o Nobel, ou de se certificar do estilo de cosmética a que adere a ficcionista pop do momento. Olha ele os escritores que distribuem autógrafos, e deixa-lhes no tampo da mesa a moeda de um euro, destinada à bejeca no snack da esquina, com a qual retribui a simpática dedicatória. Mas as mais das vezes comenta para quem o acompanha, referindo-se ao plumitivo ali exposto como as meninas nas vitrines de Hamburgo, "Ui, o homem tem pinta de quem se lava pouco!", ou então, "Credo, a gaja ainda é mais feia do que nas fotografias!" Encolhem-se os visados na sua insignificância, e acabam por ir comprar, humanos como os restantes, o volume de receitas de cozinha para o cônjuge, ou o álbum de BD para os miúdos.

Pela parte que me toca, e antes que a Feira do Livro passe à história, percorro-a de lés a lés, a comprovar o que nestas linhas fica dito, e abalo para casa na graça do Senhor.