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A agenda de Mário Claúdio

Pelintras

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

Todo o povo necessita de um surto de razões, positivas ou negativas, para subsistir como imagem satisfatória, diariamente servida a quem dele faz parte. No equilíbrio emocional alegria e tristeza intervêm com valor idêntico, isto porque vitória e derrota se revelam indispensáveis à justificação da vida. Vencer gloriosamente um campeonato internacional, ou sofrer os devastadores efeitos de um tornado, apresenta-se a esta luz como marca da permanência de um colectivo, denunciada pelo sim, ou pelo não, expressão da capacidade do homem, ou da vontade de Deus, na catártica quebra da rotina. 

Quando deixamos de descobrir o caminho marítimo para a Índia, acolhemo-nos ao maior terramoto de que há memória na Europa, e se nos sentimos palpitar nos cometimentos que nos enobrecem, não menos nos orgulhamos das tragédias que nos castigam. Se esta pendularidade não constitui característica exclusiva do nosso relógio mental, assume nele particular relevância, ilustrada pelo enamoramento de toda a grandeza, seja ela a do mais amplo arco do Mundo de uma ponte, seja a do mais comprido pão-de-ló do Universo. Trata-se de afirmar que não seremos tão anódinos como a nós mesmos parecemos, e que não se nos torna difícil imprimir o rasto nas páginas da História.

O dicionário oferece como significado de "pelintra" "pessoa pobre", "miserável ou mal trajado, mas pretensioso", e "próprio de quem não tem nada e pretende mostrar que tem alguma coisa". Não se exige demasiado esforço de memória para concluir que o discurso dos governantes em exercício, pateticamente triunfalista, e sorridentemente amarelo, afina por semelhante diapasão. Dar-se-á o caso de conformarem eles fervorosos leitores dos manuais de auto-ajuda que reclamam o pensamento "para cima" como íman da felicidade, ou de apenas encontrarem nas garras da crise o empolgamento que lhes excita a pulsão masoquista?

Foge-se à pelintrice pela saída mais próxima, a da filosófica frugalidade dos estóicos, ou a da extravagância boçal dos "pobretes, mas alegretes". Entre uma e outra resta-nos a lindíssima paisagem, o céu azul, e a consciência do "cantinho à beira-mar". Se não for isso suficiente, sobrarão os poetas, cantadores sem cheta no bolso, mas viajantes de destino infalível.

Não disse afinal o iracundo e luminoso Jorge de Sena que "roer um osso - humano, se possível, / é o sonho português de sobrevida"?