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A agenda de Mário Claúdio

O Primeiro Casamento Gay

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

Uma fatia da população do país, a ultra-sensível ao espectáculo mediático, aguardará porventura com alguma curiosidade o surto das imagens do primeiro casamento gay. Não a anima por certo a vontade de comemorar um triunfo da filosofia dos direitos fundamentais, mas a perspectiva de se rir um bocado, de verberar o descomando dos costumes, ou de hipocritamente carpir a circunstância de não se haver consultado sobre a matéria o eleitorado disponível para o efeito. Que se trate da metamorfose de um modelo de família, nunca eterno, baseado em pai e mãe, e em filhos mais ou menos legítimos, dificilmente constituirá objecto de reflexão desses curiosos, pouco bafejados pelo conhecimento histórico, e pela informação sociológica.

Do que podemos estar quase seguros é de que não se adiantarão quaisquer notáveis, e sobretudo da área da política, a dar o nó pioneiro que a lei lhes faculta agora. O mesmo sucederá com os membros de várias categorias profissionais, os camionistas, as empregadas domésticas, ou os trabalhadores da construção civil, muito embora não tenham estes maioritariamente lutado pelo passo em frente. Não se elimina de um sopro o labéu secular, rescendente a carne humana carbonizada, e sobrevivente em muito prurido de raiva e troça, de nojo e medo, que Freud explicou já aos nisso activa e passivamente envolvidos.

De forma semelhante aliás decorreram as coisas, aquando da recepção pela nossa ordem jurídica do casamento civil, e do divórcio. Inauguraram aquele duas figuras anónimas, Alexandre António Alves e Andreza Maria da Conceição, um par de rostos perdidos na multidão. E quanto a este só mais tarde se atreveria alguém minimamente público, a filha do poeta Guerra Junqueiro, Maria Isabel, que os malévolos alcunhavam de "a Velhice do Padre Eterno" por ser desabonada de graças naturais.

No casamento à vista manifestar-se-á sem dúvida a tradicional parafernália kitsch com muita alvura, tocada por azul e cor-de-rosa entre ouro e prata, e haverá o choro, e o ranger de dentes, que são da praxe em quem participa em tais cerimónias, ou em quem delas se depara excluído. Estamos afinal na Europa, e só por excentricidade se recorrerá ao véu virginal que cobre as faces, ou ao toucado de penas que coroa a cabeça. O importante será que se aproveite a efeméride como um precioso convite à conciliação. Assim acontece de facto nas óperas de Mozart, e até em As Bodas de Fígaro, nas quais se mostra quase sempre feliz o desfecho, sendo como sempre se nos impõe pacífico e exemplar.

Sposi, amici, al ballo, al gioco,

alle mine date foco!

Ed al suon di lieta marcia

corriam tutti a festeggiar!