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Expresso

A agenda de Mário Claúdio

O 10 de Junho

Se existem vocábulos proscritos do nosso léxico cívico, concitando a bíblica energia dos exorcismos, "raça" e os que de "raça" derivam constituirão com certeza os exemplos mais acabados. Por simpatia, e com apoio em teses antropológicas de problemática verificação, outras palavras, "etnia" e casta", se não quisermos ir mais longe, vêm sofrendo idêntico destino, obrigando-nos a cautelas que possuem o condão de nos lembrar pecados velhos.

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, tendo sido já Dia da Raça, continua a fazer apelo a sinais não consentâneos com a higiene mental que ditou a mudança do nome. Verberado pela inadequação política de sua letra aos tempos que vão correndo, o hino nacional contém além do mais a imprópria invocação dos "egrégios avós", acusando por isso manifesto desprezo pelos antepassados gagás e anódinos, coisa inadmissível em época democrática, e de justa reivindicação do respeito que os menos-válidos merecem. No mesmo sentido funciona a escolha dos Jerónimos, e de congéneres lugares, como cenário das cerimónias, esquecendo-se a relevância que para o efeito poderiam apresentar o Casal Ventoso, a Pedreira dos Húngaros, ou os bairros camarários, linguisticamente promovidos a resorts.

As labirínticas destrinças terminológicas, tão ubíquas no pequeno espaço português, aconselham cuidados que nos tornam dificílimos os passos. Se em determinadas bolsas o crime consiste em falar da "esposa", inequívoco atestado de piroseira, noutras o escândalo decorre de se referir a "mulher", grosseria a que apenas os alarves se atrevem. E o mesmo se diga de "companheiro", quando se conversa com uma beata, ou de "marido", quando se dialoga com uma emancipada, e nos reportamos aos respectivos consortes. Só o instantâneo retrato sociológico do interlocutor, cada vez mais complexo de se realizar, em consequência da globalização dos sintomas de status, nos poderá salvar das terríveis gafes a que permanentemente se sujeitam as nossas maneiras.

O Dia da Raça transitou à história, e com ele a pátria que Gil Vicente descobriu, que Luís de Camões e o Padre António Vieira exaltaram, que Almeida Garrett andou a pesquisar, que o Estado Novo inventou, que o 25 de Abril devolveu, e que os impulsos da indagação da identidade persistem em manipular ad nauseam.

Concluamos portanto, e à míngua de melhor fecho, que por muitas voltas e reviravoltas que se dêem, sempre o rigor nos há-de faltar, e sempre nos "falta cumprir Portugal".