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A agenda de Mário Claúdio

Inquisições

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

Houve um tempo em que, hesitando a pátria quanto ao norte que lhe competia, uma vez liquidado aquele que por quarenta e oito anos lhe tinham fixado, se multiplicaram os ensaios de dilucidação da sua identidade. Perguntava-se à história, à antropologia, e à psicanálise, que personalidade se ocultaria afinal por detrás de um império perdido, e por debaixo do aluvião de mitos que a escola fascista despejara na mona das criancinhas. Desvendar tal rosto afigurava-se então garantia de independência, e de continuidade, ou crédito aberto em favor das diversas ideologias em campo, e frequentemente em mútua contradição.

Assalta-nos hoje uma variante de semelhante vírus de indagação furiosa, a que confia a plúrimas instâncias a decisão de quem mente, e de quem não mente, de quem rouba, e de quem não rouba, de quem se serve dos bens da nação, e de quem não ousa tocar neles, tudo em prol de uma imagem impoluta da res publica que não encontrou ainda busto à sua altura. E a energia que se despende em infindáveis comissões, pretensamente apuradores da verticalidade de estadistas e conexos, desinveste do trabalho da vida habitual aqueles que poderiam talvez mostrar-se utilíssimos. O falatório dos burocratas do poder, indiferente ao corpo morto de todos nós, copia a distracção dos senadores palrantes, inconscientes de que o inimigo se mostra já intramuros da cidade.

Mas o que sobretudo caracteriza a corrente compulsão averiguadora é a previsibilidade do desfecho. Cavaqueia-se pelos cotovelos, e por dias e dias, e eis que o saldo não passa do silêncio que se eterniza, ou do reconhecimento da ineficácia dos autos. Será de prever assim que os ilícitos que suscitam agora tão afanosas demandas se evaporem no futuro, e tal e qual como os que atraíram o olhar implacável dos inquisidores. Se o judaísmo e bruxaria, a sodomia e a heresia, deixaram de conformar delitos puníveis, por que não admitir que venham a desaparecer do mapa os crimes de colarinho branco em todas as suas modalidades?

Dir-se-ia em suma, se o que fica escrito não valer um caracol, que andamos a redimir-nos de tanto inocente, condenado pelo Santo Ofício, absolvendo tanto culpado no foro das pequenas inquisições.