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A agenda de Mário Claúdio

I'm for Ever Blowing Bubbles

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

Conta o escritor britânico Osbert Sitwell numa carta a uma amiga sua que, passando por Lisboa em 1932, organizaria o então embaixador alemão uma festa, com vista a que o autor que nos visitava pudesse ouvir o fado mais genuíno. Explica ele que se revelaria a função um evento opíparo, ao qual concorreriam "inúmeros aristocratas portugueses, escurinhos de pele, e com um par de pés de altura, vestindo com exuberância, e ostentando uma profusão de jóias, e de coletes brancos". No respeitante à fadistagem porém Sitwell informa a destinatária da sua missiva de que "um tal conde de Lancastre, de apenas um metro de estatura, não se calaria, a cantar com sotaque cockney I'm for Ever Blowing Bubbles, sucesso revisteiro de uns dez anos atrás".

O afã de acrescentar à natural hospitalidade um brinde extra, tão característico da nossa gente, acaba amiúde por redundar, conforme o episódio relatado testemunha, numa despudorada afirmação de subserviência. Pela-se um certo portuguesinho, e em especial das grandes áreas urbanas, por se mostrar cosmopolita, quando mais lhe conviria ser ele mesmo, e põe-se a mirar de soslaio a reacção do forasteiro, no intuito de que o confirme no seu esplendor, ou de que o fixe na sua miséria. O desembaraço com que os nossos burocratas se botam a palrar em espanholês de clube de alterne, e através do qual confundem a certidão do seu anseio de internacionalismo com o atestado do seu medo de exclusão, fornece argumento em sentido idêntico.

Se a isto acrescentarmos a hiperbólica badalação dos feitos dos nossos na estranja, prova dos nove de que existimos no Mundo, teremos produzido um retrato que nem nos honra, nem nos estimula. Vivemos muito mais da validação do nosso rosto do que do trabalho das suas expressões, e tornamo-nos por conseguinte aflitos, sempre que nos não piscam o olho da outra banda da fronteira, ou envergonhados, quando por aí andamos a labutar. A inesquecível declaração oficial de que "para dançar el tango son necessários dos", aliás tocante na sua ingenuidade, ombreia exemplarmente com o alinhamento do noticiário de todos os canais, incluindo o público, ao conferir abundante e prioritária atenção à gesta de um majestático treinador luso, capaz de conduzir uma equipa de futebol italiano à vitória num campeonato de lá.

Nem Dom Manuel II, monarca que de resto, mas sem o proclamar, ensaiou algumas contradanças com os nossos irmãos peninsulares, falaria tão perfeito castelhano. Não consta no entanto que haja ele comemorado a circum-navegação de Fernão de Magalhães, realizada a expensas do reino vizinho, com júbilo que se compare ao que derramamos agora.

Como quer que seja, e para encurtar razões, assim é que subimos aos pódios decisórios, e assim é que descemos às praças da celebração.