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A agenda de Mário Claúdio

As Camisas de Mandela

Mário Cláudio (www.expresso.pt)

Se o cinzentismo no vestuário fica por marca da elegância, ou da boa classe social, sobretudo quando atinge os que por ofício nos devem frutos de inteligência e imaginação, não deixará ele por outro lado de nos desolar, e de suscitar em nós um certo susto. Falamos dos políticos que cunharam um modo de vestir igualitário, e tão distante da colorida inventiva dos dandies do século XIX como próximo da atonia azul dos formigueiros maoistas. A insistência em rasurar a excentricidade, tida por ameaça à consecução dos objectivos da tribo, inspira uma forma de estar em que a distinção se confunde com o estereótipo, e a alegria cede lugar ao enfado.

Não por acaso optaria Nelson Mandela a páginas tantas do seu percurso por recusar o paradigma, reabilitando-se como ser humano na adopção das polícromas camisas que conhecera numa viagem de Estado. Indiferente à irónica censura da comunidade internacional, e em particular à dos seus membros de extracção europeia, mas fazendo tábua rasa da pelagem de animais com que costumam enfeitar-se os seus irmãos de continente, eis que colocaria Mandela nas camisas, e só nelas, a sua necessidade de contemplar um horizonte limpo dessa tristeza que quase sempre segue de braço dado com o poder. Não conformaria o seu gesto um acto de coragem cívica, mas algo de tão importante como isso, a expressão do imperativo de se sentir bem na sua índole.

Por mais que se olhe a toda a volta não se descortina entre os nossos homens, ditos "públicos", quem se afoite a uma escolha destas, reveladora da assunção da saudável diferença que lhes cabe. Ao fim de contas, e à falta de melhor, os líderes ocidentais de antanho apostavam em mínimos detalhes de relevo emblemático, o militar boné do De Gaulle, o charuto havanês do Churchill, as havainas túnicas de Truman, ou as botas sertanejas de Salazar. Quanto aos de hoje, levados pela urgência de se sumirem nas águas turvas do seu pântano de ideias, enfarpelam-se eles como gémeos, seleccionando a neutralidade como táctica de defesa contra a pujança da vida.

Será caso para se concluir que andamos a perder assim, todos nós, o inalienável direito de gritar que o rei vai nu.