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Expresso

A agenda de Mário Claúdio

A Lolita de Garrett

Mário Cláudio

Quando na noite de 29 de Setembro de 1821, e no Teatro do Bairro Alto onde se estreia a sua peça Catão, o jovem dramaturgo Almeida Garrett avista a adolescente Luísa Midosi, de catorze anos, um exemplo se produz, a acrescer aos já existentes, no rol das celebérrimas paixões entre escritores e ninfetas. Se a idade da que o põe atordoado, e que viria a converter-se em sua esposa, saudavelmente se distancia da que contava Beatriz, oito aninhos apenas, quando Dante cruza com ela nas cercanias da Ponte Vecchio em Florença, nem por isso deixa o incidente de nos proporcionar plena prova, e sem dúvida pedagógica, das oscilações da moda em matéria de ética sexual. A mulher-boneca, cunhando um tipo humano em que à presunção de encantadora inocência se agrega a suspeita da perversidade infantil, andou ocupando na galeria das personagens literárias, e até há pouco, um lugar mais ou menos aceitável, mas que hoje em dia se mira de sobrolho carregado.

Sabemos que o futuro matrimonial daqueles dois, cingidos por um laço de olhares aparentemente indesatável, acabaria por se manifestar convulso ao ponto de se saldar pela ruptura. E desconfiamos de que forma larvar adivinharia o autor de Folhas Caídas semelhante desfecho, isto porém sem conseguir sobrepor-se à ânsia de morder um fruto assim, ainda não completamente sazonado. A pequena Midosi, surgida em toda a frescura da imagem que a indumentária, e os correspondentes ademanes, sobremaneira realçavam, atrairia de imediato o nosso autor a um país das maravilhas onde se dispensava o Coelho Branco, a guiá-lo para a caverna, e a Rainha de Copas, a diverti-lo com as suas malfeitorias. Ali estava ela, vestida de alvas subtilezas, e com um chapéu de cetim cor-de-rosa, diante do adulto embasbacado, e numa época em que por força da lei a mulher se tornava núbil justamente aos catorze anos, e em que à hora do chazinho que antecedia a deita nenhum dos seroantes carreava para a cavaqueira o tema impensável da pedofilia. Muito pode de facto a evolução dos costumes, teoricamente apoiada nos dados das Ciências da Natureza, e nas presunções da Psicologia, mas a verdade é que, uma vez esgotada a empolgante ausência de mácula da Lolita de Lisboa, o que castigaria a criança que lhe exigiam que eternizasse, e perdulária como qualquer petiz estragado de mimos, ficar-nos-ia a memória dela para longa e funda meditação. Seja o que for que entretanto pensarmos acerca da sensatez, ou da crueldade, dos velhos romanos, os quais nesta matéria do comportamento da espécie se limitavam a destrinçar entre púberes e impúberes, mostrar-se-á aconselhável determo-nos aqui.

Já não no coro dos anjos, nem sequer no das virgens, eis que nos contemplará de cima das nuvens a incauta Luísa Medosi, vertendo uma lágrima amarga, ou porque não? uma violenta gargalhada.