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100 reféns

Querida, eu encolhi os Deputados

Em Portugal é tudo "à grande e à francesa" sem se olhar à necessidade real. E só assim se pode entender que um país minúsculo como o nosso tenha 230 deputados na AR.

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

Existem mais deputados na AR do que em algumas aldeias do país. Se o plenário fosse uma escola primária é garantido que a Ministra Isabel Alçada não mandava fechar as portas por falta de alunos. Eles não se conhecem todos e é uma missão quase impossível.

Muitos, apesar de trabalharem juntos todos os dias, só se vêem uma vez por ano no jantar de Natal. Outros se desaparecessem durante 15 dias é provável que ninguém desse pela ausência. A menos que alguém ligasse a perguntar se os tinham visto.

Há quem se limite a votar, bater palmas, apupar ou dizer a célebre frase "muito bem, muito bem" no intervalo da utilização das redes sociais e da leitura dos diários, económicos e desportivos. Outros nunca se dirigiram à Assembleia e não consta que seja um problema de mudez. No meio disto estão os habituais carregadores de piano, os que vivem a AR e sentem o que estão a fazer. Vão escasseando.

Podia facilmente cortar-se no número de deputados sem ter o caos nas ruas ou um regresso à Monarquia. A redução reduziria gastos - 15 Milhões poupados até ao fim desta legislatura. Pouco significativo, dizem alguns. Muito dinheiro, parece-me. Além de que seria simpático os deputados finalmente conseguirem conhecer todos os colegas.

Mas basta falar-se na hipótese e fica tudo nervoso. "Uma medida demagógica". Contestam e ridicularizam sem conseguirem explicar a real necessidade desta multidão no hemicíclo. Redução pode "levantar problemas ao nível da representatividade". Pois sim, está bem, só mais um bocadinho e adormeço.

Muitos destes deputados apregoam não poucas vezes o emagrecimento da "pesada administração pública", mas se o dito emagrecimento começar com uma lipoaspiração à AR o caso muda logo de figura. Se calhar é melhor ligar ao Doutor Tallon e prolongar a dieta com pequenas reduções salariais e alguma contenção orçamental.

Mota Amaral concorda com a redução. Mas afinal de contas o homem é apenas deputado e ex-presidente da AR, que pode ele saber do assunto? Já entre os partidos, o único que admitiu falar na hipótese foi o PSD. No entanto, e sem que o seu novo líder esteja sentado na AR, apressou-se a nomear meia dúzia para cargos de assessoria do grupo parlamentar pagos pela mesma AR. Grande exemplo de contenção sim senhor.

Com as vacas escanzeladas, a darem Molico em vez de leite, seria bom ver o número de deputados reduzido do máximo possível - os tais 230 que lá estão sentados - ao mínimo exigível que parece que são 180, coisa pouca. Mas isso seria pedir muito e mexer com muita coisa. E os grandes exemplos neste país fazem-se quase sempre à custa dos mesmos. E "os mesmos" não consta que sejam os senhores deputados.