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Proibir a burqa ou não, eis a questão

Em Espanha o Senado aprovou moçao que levará o governo a legislar de forma a proibir o uso da burqa em espaços públicos. Um pouco por toda a Europa os governos estão a adoptar leis neste sentido. Isto vai acabar mal.

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

Acho que ninguém deveria ser impedido de usar como vestuário o que bem entendesse. Fosse o que fosse, onde quer que fosse. Mas isso seria viver num planeta que não este. E por enquanto ainda lhes chamamos Terra. Pelo menos até a rapaziada da Aplle ou do Google lhe darem outro nome qualquer. Se bem que não é de admirar que alguns miúdos americanos pensem que o planeta se chama de facto Google Earth.

O uso da burqa, segundo alguns, choca as comunidades ocidentais e pode levantar problemas ao nível da segurança. Faz algum sentido. Não pelo traje em si, pelas historias de submissão, pelo simbolismo religioso ou outro que a veste acarrete. Mas pela lógica.

Mas por esta lógica então há que proibir toda e qualquer veste que cubra o rosto na sua totalidade e não apenas esta especificamente. E ainda não ouvi qualquer notícia sobre proibições às mascotes que fazem publicidade em tudo o que é Estádio, evento social ou Centro Comercial. São espaços públicos não são? Estão tapadinhos não estão? Então qual é a diferença? São mais peludos? O rosto? Mas o rosto não se vê. Não era essa a questão? Ou seria outra? O boneco Gil da Expo 92 a passear em Lloret del Mar está a desrespeitar a lei?

No fundo isto não se trata de proibir ou não. Não deveria ser necessário existir legislação para as pessoas deixarem de vestir o que entenderem em qualquer parte do globo. Mas para isso era preciso que percebêssemos que somos nós quem tem de se adaptar aos locais, povos e costumes, e não o contrário. Chama-se bom senso. Não entender isto, ser intransigente e adoptar uma atitude fundamentalista com o argumento da defesa da liberdade individual de cada um para fazer o que bem entender é ser, no mínimo, obtuso. E fundamentalismo gera fundamentalismo.

Se um indivíduo entrar numa Mesquita, não se descalçar e começar a fazer sapateado é capaz de correr mal, ou não? Se uma ocidental for a um país onde o véu, a burqa ou o Nikab são o traje habitual e aceite pela população e por lá andar de mini-saia e salto agulha, o que acontece? Se uma mulher estiver de burqa numa fila da loja do cidadão como pode um funcionário identificá-la pela fotografia se necessitar? É que de burqa somos todos iguais.

Alguns, da esquerda Beluga principalmente, levantam-se de imediato contra qualquer tipo de proibição. Mas se o filho ou filha tivessem por companheira de carteira uma rapariga a quem nunca viam o rosto o caso mudaria de figura. Com burqa ou sem burqa, o problema não está na veste, está na cabeça das pessoas. E não são as leis ou proibições que mudam a forma de cada um ver o mundo.