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100 reféns

O meu Facebook é maior que o teu

Hoje em dia quem não estiver numa rede social é visto como um ser abjecto, remeloso e malcheiroso. E este facto começa a afectar os relacionamentos, principalmente entre os mais jovens.

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

Há algum tempo assisti a uma discussão entre dois miúdos que não deveriam ter mais do que 10 anos de idade. A coisa até estava a correr bem, com os miminhos habituais do género "o teu pai é careca" e "a tua mãe é um coirão". "Balofo e hipopótamo" dizia um. "Espetada mista e pau de virar tripas" respondia o outro.

Mas o caldo só se entornou definitivamente quando o "espetada mista" entrou no âmbito das redes sociais e atirou com um "o meu facebook é maior que o teu" ao miúdo "hipopótamo". Nunca tinha visto um hipopótamo chorar, muito menos por causa do Facebook. Mas foi o que aconteceu. E chorou muito o pequenito. 

A verdade é que hoje em dia quem não estiver activamente numa rede social pode ser ostracizado pela sociedade na mesma medida das pessoas que sofrem de halitose. A realidade deixou de ser "real" e passou a ser virtual. Quem não tem uma boa convivência virtual não é bem visto na Sociedade real.

À frase "eu não uso redes sociais por opção" seguem-se quase sempre olhares reprovadores e enviesados, demonstrando profunda repulsa e algum nojo por quem a profere. "Sabias que o Pedro da contabilidade não tem Facebook? Sempre achei esquisitas aquelas camisas. E cheira tão mal da boca que até dói nas narinas" "A sério? O sujo? Bem me parecia. Nunca confiei nele".

Já vi leprosos com mais amigos do que a malta anti-redes sociais. Andar cheio de pulgas e carraças agarradas ao corpo ainda vá, agora não ter um Hi5 é que parece impossível. Se Darwin fosse vivo de certeza absoluta que já tinha dedicado algum do seu tempo a este grupo, o das "pessoas que não usam redes sociais".

Provavelmente daqui a algum tempo quem não tiver Facebook ou rede social equivalente não poderá ter um cartão do cidadão, votar, candidatar-se a um emprego ou casar. E os psiquiatras vão ter de começar a apostar nas redes sociais acompanhadas da medicação para os casos de "alheamento da realidade virtual".

Sim, porque hoje em dia a realidade muitas vezes começa no mundo virtual. E quem não estiver lá representando não existe.