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Expresso

100 reféns

O grego não é um bicho feio, porco e mau

Começam a generalizar-se os comentários depreciativos e insultos ao povo grego, como se este fosse o único culpado da instabilidade que se vai vivendo. Vamos lá a ter calminha.

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

Numa pastelaria um grupo de reformados assiste ao noticiário e exalta-se ao saber do empréstimo que a Europa irá conceder à Grécia. Parte deste pacote de ajuda suportado por Portugal. Do alto do seu cabelo armado em Révlon e de punho em riste uma senhora dos seus 75 anos de idade apelida os gregos de "madraços", "calões" e "cafetões".

Um dos revoltosos acena em concordância com tal veemência que quase lhe salta a placa. No olhar o ódio de quem certamente passaria a faca dos scones no bucho do primeiro grego que tivesse a infelicidade de ali entrar para comer um mil folhas. Na televisão imagens de confrontos entre manifestantes e a polícia em Atenas: "Vândalos!" - grita de imediato uma senhora pequenina ao fundo da mesa, antes de mais golada no chá de tília.

1 - O sentimento perigoso de que os gregos são um conjunto de malfeitores munidos de mocas antieuropeias com o objectivo de destruir à paulada a Velho e Sagrado Continente e sua magnífica e estável Economia deve ser combatido.

2 - Os gregos são cidadãos europeus como os outros. E dentro da Europa estão numa situação parecida com a nossa. A grande diferença é que vão receber menos e pagar 23% de IVA enquanto nós por enquanto continuamos nos 20%. De resto casam, trabalham, têm filhos, são despedidos, entram em depressão, morrem e são enterrados como os outros. Pelo meio ainda têm de suportar políticos incompetentes e corruptos como acontece em muitos outros países. Assim de repente não me lembro de nenhum.

3 - Emprestar dinheiro aos "vândalos" justifica-se porque de hoje para amanhã, provavelmente já para a semana, seremos nós a estar de mão estendida. Como devem ter reparado Portugal é o pedinte que se segue na fila da sopa dos pobres países europeus.

4 - Não há que ter vergonha de pedir quando precisamos mas convém ajudar os outros quando necessitam. O pilar da solidariedade é um dos que fundamentam a existência da UE. Quando chegar a nossa vez seria bom que ainda houvesse um resto de sopa na panela para que a concha não venha vazia ter com o prato. Ou que o chefe de cozinha alemão não esteja com os azeites porque nós não quisemos ajudar o amigo grego quando ele caiu em desgraça.

O Presidente Aníbal Cavaco Silva frisou ontem que "o pacote da Grécia é muito importante". Palavras sábias digo eu. Deveriam merecer a devida reflexão.