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100 reféns

Não seria já altura de termos um Dia do Desempregado?

Ontem foi o dia do Vizinho. Amanhã provavelmente vai ser o dia do gajo que se engasgou com um caroço de maçã reineta. Temos o dia do trabalhador. E o desempregado? Não tem direito a dia?

Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

dias para todos os gostos: do pai e da mãe, do idoso e da criança, do animal e do vizinho, da árvore e do sono, dos namorados e do dador de sangue, da defesa nacional e das mentiras, do trabalhador e do teatro, da paz e do ambiente, do livro e da água, do consumidor e do doente.

Faz-me alguma confusão o facto de se comemorar o dia do trabalhador não fazendo absolutamente nada. Apenas a ouvir as gaitas da CGTP nas baixas das cidades. Mas está instituído. Tudo bem. Mas então porque é que no dia da árvore se plantam árvores? Será fetiche? E no dia dos namorados não se vai jantar fora, cinema, beijinhos e coisas assim? Então porque raio é que no dia do trabalhador está tudo a olhar para ontem? Não seria melhor estar tudo a bulir e pela hora do lanche comer um bolo oferecido pelo patrão com a inscrição: "tocas no recheio e vais para o olho da rua"?

Agora olhando os números do momento - 10,6% da população sem emprego - não entendo porque ainda não existe neste país um Dia do Desempregado. As comemorações nem precisavam ser muito elaboradas. Era mais um dia normal para quem se encontra nesta ingrata e trágica condição. Não faziam nada, à imagem do que os trabalhadores fazem no Dia do Trabalhador: coçam-se.

Assim os desempregados podiam sentir-se trabalhadores por um dia. E se lhes perguntassem o que é que iam fazer no Dia do Desempregado diziam que não iam fazer nada, como os trabalhadores fazem no dia deles. É estranho pensar que no dia do trabalhador este faz vida de desempregado, mas é a verdade. E por esta ordem de ideias para o Desempregado é Dia do Trabalhador todos os dias. Enfim.

No dia do desempregado podiam fazer a "marcha dos classificados". Todos com os classificados dos jornais debaixo do braço desde o Terreiro do Passo até à AR.

Posso estar enganado, mas ver 592,2 mil pessoas a marchar na Capital em direcção ao centro do poder ia ser certamente um dia para mais tarde recordar. E tenho a certeza absoluta que os nossos governantes dificilmente o iriam esquecer.